Nós, membros da Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Olinda e Recife, imbuídos da nossa responsabilidade de denunciar injustiças e promover a paz, queremos deixar público nossa indignação cidadã com a violenta manifestação ocorrida no domingo 16/08, em torno de uma criança de 10 anos, vítima de continuada violência sexual dos 6 aos 10 anos, que resultou em gravidez.

Violentada novamente pela criminosa exposição e divulgação de sua identidade, a menina foi mais uma vez violentada por agressões verbais de um fundamentalismo simbólico estrutural, de grupos exaltados e absolutamente primários, violentos, sem compaixão e misericórdia humana e cristã, que tentavam impedir sua entrada e a da equipe médica no CISAM.

Considerando este momento, ainda com graves repercussões em vários setores da sociedade e das Igrejas, queremos manifestar nossa solidariedade com o sofrimento dessa família e de todas as crianças vítimas de diversas formas e níveis de violência. As informações e os dados sobre a problemática que nos envolve e nos desafia, como pessoas humanas nesta sociedade injusta, em parte podem ser conferidas no 13º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em setembro do ano passado, que mostra o registro recorde da violência sexual.

Foram 66 mil vítimas de estupro no Brasil em 2018, onde a maioria das vítimas (53,8%) foram meninas de até 13 anos.

Qual o compromisso que nós cristãos temos assumido no combate a esse tipo de crime? Será que o nosso papel é o de acusadores, agredindo a criança com a maldade histórica dos moralistas de plantão? Ou nosso papel é o da compaixão e da misericórdia? Uma criança!

“Quem receber esta criança em meu nome, estará recebendo a mim”, (Lucas, 9:46 ).

A violência do estupro, responsável pela violência do aborto, não pode recair sobre a criança vítima. Uma sociedade como a nossa, onde quatro meninas até os 13 anos são estupradas a cada hora, está gravemente doente. É urgente reconhecermos a gravidade e a extensão dessa doença que se espalha como um vírus letal por toda a sociedade, para agirmos efetivamente para exterminá-la.

Quais as leis de proteção da infância já propostas pelos parlamentares que estavam liderando o grupo enfurecido? Um deles, registre-se, é famoso por tentar impedir a educação sexual nas escolas, afirmando que ela é responsabilidade da família. No entanto as estatísticas mostram que 70 % dos estupros de crianças acontecem no seio da família. As pessoas que lá estavam causando um profundo constrangimento às outras pacientes e aos profissionais de saúde, tinham ou têm algum discernimento sobre a realidade sócio antropológica e econômica das meninas e mulheres envolvidas nessa violência?

O compromisso para a construção de uma sociedade mais justa e de uma fé libertadora, nos chama a uma união com todos e todas que foram e são engajados em intenções e ações amorosas e corajosas em direção a uma terra sem males.

Comissão de Justiça e Paz – Arquidiocese de Olinda e Recife