A partir de hoje nas livrarias "Terrafutura", que se abre com três longas conversas entre o Papa Francisco e Carlin PetriniPadre Spadaro: ao longo da história, a Igreja avançou graças a impulsos. Precisamos fomentar discussões.

A reportagem é de Gianni Cardinale, publicada por Avvenire, 09-09-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Terrafutura
Carlo Petrini

Um "diálogo honesto" entre o sucessor de Pedro e um "agnóstico piedoso" sobre a ecologia integral promovida pela encíclica Laudato si'. Isso é Terrafutura, o livro editado por Carlo Petrini coeditado por Giunti e Slow food nas livrarias a partir de hoje. O livro, que se abre com três conversas inéditas de Petrini com o Papa Francisco ocorridas antes e durante a pandemia, foi apresentado ontem na Sala Marconi da Rádio Vaticana pelo próprio Petrini, pelo padre Antonio Spadaro, diretor da Civiltà Cattolica, e pelo bispo de RietiDomenico Pompili, que participou das conversas e prefaciou o volume.

Numerosas sugestões lançadas pelos três palestrantes. Spadaro falou sobre "diálogo honesto" como um "método radical", extremamente necessário no contexto político e cultural de hoje, e também destacou como o "agnóstico piedoso" - é assim que o Papa chama Petrini no livro – é algo muito diferente de um “ateu devoto", pois, para Francisco, a pietas "tem um significado muito preciso e diz respeito não à participação em temas católicos ou ambientes curiais, mas à atitude nobre para com a natureza". O diretor da Civiltà Cattolica relançou sugestões sobre "biodiversidade cultural", sobre "democracia vegetal" e sobre "sinodalidade civil". Observando que “na Igreja as discussões não são um problema”, Spadaro citou um dos três diálogos contidos no volume, lembrando que a Igreja ao longo da história “avançou graças aos saltos, aos impulsos para frente”, razão pela qual “é preciso fomentar as discussões e colocar energias em circulação”. O jesuíta lembrou então que a terceira encíclica de Francisco, Fratelli tutti, “vem cinco anos depois de Laudato Si', que destacou o tema da conexão entre os seres humanos e o mundo, com as questões ecológicas a ele ligadas" “Mesmo sem ter ainda o documento à disposição – especificou – podemos esperar que esses temas e o tema da fraternidade, que o Santo Padre valoriza desde o título, estejam presentes e que a Laudato Si' e o Documento de Abu Dhabi confluam para ele, à luz de São Francisco”.

Carlin Petrini, por sua vez, recordou quando o Papa Francisco lhe pediu o endereço para convidá-lo como ouvinte para o Sínodo sobre a Amazônia, "uma das experiências mais gratificantes da minha vida". E depois falou da sua amizade com Pompili e de como juntos deram origem às Comunidades internacionais Laudato Si', hoje cerca de sessenta na Itália, cujos representantes serão recebidos no próximo sábado na Sala Clementina pelo Pontífice. “Inteligência afetiva e austera anarquia” são para Petrini as características das Comunidades que, por impulso da Laudato Si', desde agosto de 2017 fazem de Amatrice um local de referência permanente para estudos na frente ambiental e educacional, a nível internacional. “promover ações para uma ecologia integral e modificar estilos de vida e comportamentos cotidianos” assim Monsenhor Pompili resumiu o espírito das Comunidades Laudato Si', que partem da ideia de que “o desenvolvimento é mais do que um simples progresso: é um impulso propulsor que não pode ser extinto e continua disponível para o mundo também para superar a pandemia em curso”. Porque “como diz o Papa, nem tudo está comprometido: é possível mudar a insensatez de um progresso econômico que compromete o futuro da terra”. Concordando com Petrini que a mensagem de Laudato Si' teve dificuldade para ganhar espaço até mesmo dentro do mundo católico, o bispo de Rieti observou que algo semelhante também aconteceu com a Rerum Novarum de Leão XIII, que depois se tornou um marco que identificou uma virada no magistério social da Igreja Católica.

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fonte: http://www.ihu.unisinos.br/602727-dialogos-sobre-ecologia-integral


Carlo Petrini: “O Papa? Ele sempre usa a mesma garrafa de plástico, que ele recicla”

Em um livro, os diálogos entre o papa Francisco e Carlo Petrini, fundador do Slow Food: “Pequenos gestos por uma ecologia integral”. "A luz da casa do pontífice vem de painéis solares"

A entrevista é publicada por Corriere della Sera, 09-09-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Bergoglio e eu, dois personagens que não poderiam ser mais diferentes. Mas tudo correu bem ... talvez graças às origens piemontesas comuns”. Carlo Petrini, fundador do Slow Food, sorri ao recordar as longas conversas com o Pontífice - uma em 2018, uma em 2019 e uma em março de 2020, em plena pandemia - que deram origem a seu último livro, Terrafutura. Dialoghi con papa Francesco sull’ecologia integrale (Terrafutura. Diálogos com o Papa Francisco sobre ecologia integral, em tradução livre) que chegou às livrarias ontem pela editora Giunti e foi apresentado na sede da Rádio Vaticano. Um livro par fins de caridade (a renda vai para um novo centro das Comunidades Laudato Si', associações de cidadãos nascidas após o terremoto de Amatrice) que, além do confronto direto com o Santo Padre, analisa através de cinco temas - biodiversidade, economia, migrações, educação, comunidade - o mundo de hoje.

 

Eis a entrevista. 

Definitivamente a ser mudado, segundo os dois interlocutores.

Sim, nos encontramos muito alinhados. Embora eu seja um agnóstico ... Disse-lhe isso imediatamente, e ele respondeu que sou um agnóstico piedoso, porque tenho pena da natureza.

E acrescentou que é uma atitude nobre.

Concordamos que ter essa sensibilidade hoje é a única forma de tentar mudar as coisas. Ele também a tem, escreveu em 2015 uma encíclica muito poderosa, Laudato si', na qual introduz o conceito de "ecologia integral" que dá título a esse livro. O alcance daquele documento, em minha opinião, ainda não foi compreendido. Nem pelo mundo laico, que o considera um texto religioso, nem pelo mundo católico, que o considera ecologista. Não é uma encíclica ecológica, é uma encíclica social.

Porque as duas coisas coincidem.

Claro: o meio ambiente não está desvinculado da sociedade que o habita. Nós também somos ecologia, como diz o Papa. Até entendermos isso, nada se resolverá. Continuaremos a sujeitar a terra, os mares e os ecossistemas a uma degradação tal que corre o risco de se tornar um desastre irreversível.

Como reverter a marcha?

As primeiras coisas que vêm à mente são pequenas, pessoais: não desperdiçar comida, reduzir o uso de plástico e colocar no centro as relações, não no lucro.

Dos seus diálogos, fica claro que o Papa em sua residência usa uma única garrafa de plástico, que ele recicla, e que a luz da casa vem de painéis solares.

A beleza dessas conversas informais é que estimulam: com exemplos pequenos falamos de grandes coisas. É o valor do diálogo: o componente humano.

No livro, Sua Santidade menciona bagna cauda e tajarin. Mas como segundo prato, em sua casa, se comia o assado argentino.

Como gastrônomo falei-lhe de comida e concordamos que é uma ponte, um meio de conhecimento mútuo e que todas as culturas do mundo derivam da hibridação. Porque o mundo nasce das migrações, as mesmas que hoje se querem estigmatizar como se o problema fossem os nossos semelhantes que sofrem e não um sistema que oprime. O Papa diz: sem migração e sem filhos que futuro nos espera?

Vocês formularam, conversando vários ataques: contra o populismo, o egoísmo, o consumismo, a economia selvagem, as finanças “que é papel”

O Papa os chama de vírus da atualidade. Mas é isso mesmo: se morre de capitalismo, basta pensar nas pessoas que morreram no trabalho pela exploração. O populismo assusta os ânimos e fecha as fronteiras. A ideia que vivemos para maximizar nosso bem-estar deve ser mudada: de homo oeconomicus devemos nos tornar homo comunitarius.

Algo em que vocês não concordam?

Ressaltei que a Igreja Católica sempre mortificou o prazer. E o Papa fez um raciocínio extraordinário: disse que não isso, que o prazer humano é aceito. O prazer de comer serve para nos mantermos saudáveis, enquanto o prazer sexual serve para tornar o amor mais belo e garantir a continuação da espécie. Isso me impressionou muito. Afinal, Sua Santidade, como bispo, fazia assistir ao Jantar de Babette, seu filme preferido, aos seminaristas para explicar o conceito de dom. Não me parece pouco.

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fonte: http://www.ihu.unisinos.br/602732-carlo-petrini-o-papa-ele-sempre-usa-a-mesma-garrafa-de-plastico-que-ele-recicla


Laudato Si’, Greta Thunberg e Bento XVI: confidências do Papa Francisco

Em uma nova série de entrevistas recém-publicadas em livro na ItáliaFrancisco debate a sua encíclica sobre a ecologia e defende um novo paradigma econômico.

A reportagem é de Loup Besmond de Senneville, publicada por La Croix International, 09-09-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Papa Francisco tem estado em diálogo com vários não crentes desde que se tornou bispo de Roma, convencido de que “devemos entender o humanismo agnóstico”.

Em 2013, ele se confidenciou ao veterano jornalista italiano Eugenio Scalfari, um autoproclamado ateu. Em 2017, ele manteve conversas com o sociólogo francês Dominique Wolton, um agnóstico.

E recentemente concedeu três entrevistas a outro escritor que proclama seu agnosticismo, Carlo Petrini, um ambientalista e inventor do movimento Slow Food.

Essas breves entrevistas – realizadas entre maio de 2018 e julho de 2020 – foram publicadas na Itália nessa quarta-feira com o título “Terrafutura” (Slow Food Editore).

papa e Petrini falam com carinho sobre a culinária das suas avós, mas também vão muito além dos temas gastronômicos.

Em primeiro lugar, o ex-arcebispo de Buenos Aires homenageia Bento XVI, especialmente a recusa do papa emérito ao proselitismo.

Francisco recorda a convicção do seu antecessor de que a Igreja deve crescer por atração, não por proselitismo.

“É por isso que eu me irrito quando dizem que Bento XVI é um conservador”, diz Francisco no novo livro. “Bento XVI foi um revolucionário! Em tantas coisas que ele fez, em tantas coisas que ele disse, ele foi um revolucionário”, insiste o papa jesuíta.

Petrini, 71 anos, debate com Francisco sobre a encíclica papal Laudato si’, de 2015, um documento “sobre o cuidado da casa comum”, que fascinou o fundador do Slow Food.

O papa lhe fala sobre as várias etapas que marcaram a sua própria “conversão ecológica”. “Para mim, a saúde do pulmão verde do mundo não era uma preocupação”.  A primeira etapa ocorreu em 2007, no encontro dos bispos da América Latina (Celam) em Aparecida. Assim como Francisco também disse aos ecologistas franceses na semana passada no Vaticano, ele também conta como foi tocado, na época, pelos discursos dos povos da Amazônia.

“Lembro-me muito bem de me incomodar com aquelas atitudes e de comentar: ‘Esses brasileiros nos enlouquecem com os seus discursos!’”, admite. “Para mim, a saúde do pulmão verde do mundo não era uma preocupação, ou pelo menos eu não entendia o que isso tinha a ver com o meu papel de bispo”, continua ele em sua conversa com Petrini.

Poucos anos depois, depois de se tornar papa e começar a escrever a encíclica, foi um encontro com Ségolène Royal, então ministra da Ecologia da França, que o alertou sobre as grandes expectativas desse texto. “É importante, será um texto com um impacto muito grande, muitos de nós o esperamos”, disse Royal ao papa em 2014, às margens da visita papal às instituições europeias em Estrasburgo. “E foi lá que eu entendi pela primeira vez a centralidade do documento e a sua importância pelos temas que tocava”, revela o papa no novo livro.

Laudato si’, “uma encíclica social”

Mas Francisco insiste que esse texto não deve ser reduzido a uma “encíclica verde”. “É antes uma encíclica social. Embora fale de ecologia, devemos todos partir do pressuposto de que somos os primeiros a fazer parte da ecologia”, afirma.

O papa então pede que a sociedade redescubra “a beleza da natureza”. “Você sabe qual é a principal despesa das famílias em todo o mundo, depois da alimentação e do vestuário?”, pergunta ele a Petrini. “Cosméticos. E a quarta? Animais de estimação. Não é curioso?” “Há um mundanismo que caracteriza esta era e nos leva a apreciar uma beleza artificial, efêmera e leve”, continua.

Nesse sentido, Francisco é solidário ao movimento desencadeado pela ativista sueca Greta Thunberg. “O bonito é que esse movimento despertou as consciências dos jovens, que até então estavam um pouco à margem desse debate e da participação política”, diz o papa.

Ao longo das entrevistas, ele frequentemente relaciona a necessidade de proteger a “casa comum” e a luta contra um sistema econômico que parece ter enlouquecido.

O populismo “oprime a alma”

Todas essas questões ganham ainda maior destaque com a pandemia. Por essa razão, Francisco fala de uma humanidade “pisoteada”. “Pisoteada por este vírus e por tantos vírus que fizemos crescer”, disse ele em comentários retirados de uma entrevista concedida em julho passado. “São vírus injustos: uma economia de mercado selvagem, uma injustiça social violenta, em que as pessoas morrem como animais”, lamenta.

Um pouco mais adiante, ele expressa uma séria preocupação com a ascensão do populismo, “que oprime a alma”, insiste.

Esse é realmente um dos pontos focais do novo livro. “Qual é a solução mais fácil proposta hoje? Populismo!”, observa Francisco. “E o que o populismo faz? Promove uma ideia, agarra as pessoas com uma ideia, semeia o medo – por exemplo, o medo dos migrantes vem do populismo –, e alguns discursos de certos líderes políticos de alguns países que eu escuto estão realmente indo na direção de um populismo perigoso”, alerta.

O papa argentino afirma que a rejeição aos migrantes parece ser um sintoma do populismo na Europa. “O que esperamos desse fechamento de portas? Vivemos em uma Europa que já não tem filhos, que se fecha violentamente à imigração e que se esquece de que a sua própria história é feita de migrações há séculos”, lamenta.

O papa, então, confidencia a Petrini que ele ficou especialmente impressionado ao ler “Sindrome 1933”. Nesse livro, publicado em italiano no ano passado, o autor, Siegmund Ginzberg, traça um paralelo entre a Alemanha dos anos 1930 e o populismo de hoje.

 

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fonte: http://www.ihu.unisinos.br/602721-laudato-si-greta-thunberg-e-bento-xvi-confidencias-do-papa-francisco