Notas Públicas


    Donald Trump com o cardeal Timothy Dolan, num jantar, em Outubro de 2016.

     

    Em menos de duas semanas, o segundo presidente católico dos Estados Unidos assumirá o comando e iniciará a longa e árdua tarefa de reconstruir a democracia do país. Os católicos precisam embarcar juntos para ajudar, e não atrapalhar, esse processo.

    Publicamos aqui o editorial do jornal National Catholic Reporter, 07-01-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

    Eis o texto.

    Há muita culpa em circulação depois da vergonhosa invasão do Capitólio dos Estados Unidos nessa quarta-feira, 6, por uma multidão de direita que tentou impedir a contagem formal dos votos do Colégio Eleitoral para o próximo presidente legalmente eleito dos Estados Unidos.

    Claramente, o atual residente da Casa Branca há meses tem mentido repetida e deliberadamente sobre a inexistente fraude eleitoral e, enquanto bandidos empunhavam a bandeira dos Estados Confederados passeavam pelo Capitólio, ele é culpado por incitar a violência em seu discurso matinal na Casa Branca. No fim do dia, ele expressaria seu “amor” por aqueles que só podem ser descritos como terroristas domésticos.

    E, é claro, os mais de 100 republicanos da Câmara e mais de uma dezena de senadores republicanos que planejaram se opor aos resultados do Colégio Eleitoral nessa quarta-feira – incluindo aqueles que mais tarde mudaram de ideia e, sejamos honestos, praticamente todos os republicanos, exceto o senador Mitt Romney – serão lembrados por acender o fogo que, no fim, explodiu em chamas.

    Até mesmo o vice-presidente, Mike Pence, e o quase ex-líder da maioria no Senado Mitch McConnell, que tentaram fazer a coisa certa ao fazer discursos razoáveis ​​pela manhã, não conseguiram apagar os últimos quatro anos de apoio a Trump e de contribuição para o clima que alimentou o frenesi.

    Mas, também entre aqueles que têm alguma culpa pelo fracasso da insurreição dessa quarta-feira, estão mais do que algumas lideranças da nossa Igreja. Os apologistas católicos de Trump têm sangue em suas mãos.

    Muitos estadunidenses ficaram chocados ao verem a multidão violenta quebrando vidros e escalando os muros, enquanto membros do Congresso se agachavam debaixo das mesas ou corriam para bunkers seguros.

    Nós não ficamos surpresos.

    Esse é o ponto culminante daquilo que esta presidência tem sido desde o início – e alguns católicos ficaram em silêncio ou, pior, torceram junto, incluindo alguns bispos, padres, algumas irmãs, a mídia católica de direita e muitas pessoas do movimento pró-vida.

    Estamos falando com vocês, CatholicVote.org, procurador geral William Barr e outros católicos do governo TrumpAmy Coney Barrett, cardeal Timothy DolanBill Donohue, da Catholic League, nefasta pró-vida Abby Johnson. Infelizmente, a lista continua.

    E o que dizer dos católicos do dia a dia – cerca de 50% deles – que votaram em Trump neste ano, depois de quatro anos de incompetência, de apelos racistas e ataques às normas democráticas? Nem todos estiveram no “protesto” em Washington, mas muitos apoiaram organizações que alimentaram as chamas.

    Muitos eleitores católicos se contentaram em agradar a Trump em troca de incentivos fiscais, ou de juízes da Suprema Corte ou de subsídios para as escolas católicas.

    Muitas dessas pessoas foram moldadas pela mídia católica de direita, sejam padres desonestos no Twitter, sites como o Church Militant ou o LifeSiteNews, ou o conglomerado de mídia católica Eternal Word Television Network (EWTN). Este último, com o seu verniz de respeitabilidade, desinformou milhões de católicos em todo o mundo com suas notícias tendenciosas e programas de opinião.

    O âncora da EWTN, Raymond Arroyo, que faz bico no programa “The Ingraham Angle” da Fox News, onde ele está livre da suposta respeitabilidade da EWTN, merece destaque.

    Isso deve parar. Se a Igreja deseja viver de acordo com os ensinamentos do seu fundador e se deseja ser uma testemunha para a cultura, ela não pode e não deve fazer parte daquilo que aconteceu no Capitólio da nossa nação. Não deve haver um nacionalismo católico branco. E um movimento pró-vida que adota o nacionalismo branco não é um verdadeiro movimento pró-vida. Ponto.

    Embora alguns prelados tenham se manifestado o tempo todo, a Conferência dos Bispos como um todo deve confessar publicamente e expiar a sua cumplicidade no empoderamento do presidente e do Partido Republicano nessa violência e na difamação do Partido Democrata. Os bispos dos EUA poderiam começar dissolvendo aquela comissão ad hoc adversária do presidente eleito, Joe Biden, e usar seus vários recursos para mudar a forma como discutimos o que significa ser católico pró-vida. Um movimento pró-vida que não quer exclamar “Vidas Negras Importam” não é um movimento pró-vida.

    Vestir-se de panos de saco e cobrir-se de cinzas não deveriam estar fora de questão, mas será necessário mais do que uma confissão.

    Nossos líderes religiosos, muitos dos quais perpetuam a própria supremacia branca que levou ao golpe dessa quarta-feira, devem começar o longo e árduo trabalho de tentar reconstruir uma cultura política de confiança e unidade. Isso não pode ser feito com um hiperpartidarismo e um foco intenso em apenas uma questão.

    A tentação de agradar o poder é real, e alguns ainda se recusam a abrir mão disso. Alguns estão tentando desviar a culpa do golpe dessa quarta-feira para um falso movimento antifa; outros estão tentando “deixar isso para lá” de forma muito rápida.

    Um refrão frequente após o ocorrido foi que “somos melhores do que isso”. Em alguns aspectos, isso é falso. Isso faz parte de quem somos – sempre fez parte de quem somos –, e Trump reforçou e legitimou isso de uma forma que é francamente aterrorizante.

    Mas os insurrecionistas e os direitistas, inclusive católicos, que os encorajaram não são tudo o que somos.

    Em menos de duas semanas, o segundo presidente católico da nossa nação – um homem decente – assumirá o comando e iniciará a longa e árdua tarefa de reconstruir a nossa democracia. Os católicos precisam embarcar juntos para ajudar, e não atrapalhar, esse processo.

     

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    fonte: http://www.ihu.unisinos.br/605980-catolicos-precisam-confessar-sua-cumplicidade-no-golpe-fracassado-nos-eua-editorial-do-jornal-national-catholic-reporter

     

     

    Estados Unidos, três dias antes do assalto, o incitamento de Viganò, inimigo do Papa Francisco

    O ex-núncio em uma entrevista a Steve Bannon, havia instado "o filhos da Luz para agirem agora em favor de Trump contra Biden”.

    A reportagem é de Maria Antonietta Calabrò, publicada por Huffington Post, 07-01-2021. A tradução de Luisa Rabolini.

    Três dias antes do assalto ao Congresso dos Estados Unidos para "bloquear" a proclamação da vitória de Joe Biden, o ex-núncio Carlo Maria Viganò divulgou (1º de janeiro, festa de Maria Mãe de Jesus) uma entrevista a Steve Bannon publicada em 3 de janeiro pelo Lifesite (na Itália Stilum Curiae), no qual ele incitou os "filhos da luz" a agirem "agora". Com esta motivação: “Se os Estados Unidos perderem essa oportunidade, agora (em itálico no texto, ndr) eles serão cancelados da história. Se permitirem que se insinue nas massas a ideia de que o veredicto eleitoral dos cidadãos, expressão primeira da democracia, possa ser manipulado e anulado, serão cúmplices da fraude e merecerão a execração de todo o mundo, que olha para a América como um nação que conquistou e defendeu a própria liberdade."

    Visto o que acontece, pode-se bem dizer que os teóricos da conspiração tiveram uma bênção "católica" do polêmico arcebispo, cujo pupilo é Donald Trump desde 2018 e cujo inimigo número um é o Papa Francisco. Ao grito de “Deus quer”, grito de guerra medieval para recrutar os cruzados a serem enviados à Terra Santa para libertar o Santo Sepulcro.

    Questionado por Bannon - “Você estava muito confiante de que Deus deseja (observe o verbo no tempo presente, ndr) uma vitória de Trump para derrotar as forças do mal presentes no Grande Reset dos globalistas. O que você diria para convencer os contrários que são ambivalentes quanto à ideia de que esta é uma batalha histórica entre os filhos da luz e os filhos das trevas? " - o Arcebispo Viganò respondeu de fato: “Vou me limitar a considerar quem é seu adversário e quais são seus vínculos com a China, com o deep state e com os partidários da ideologia globalista. Penso em sua intenção de nos condenar a usar a máscara, como ele admitiu com franqueza. Penso no fato de que, sem dúvida, ele seja apenas um fantoche nas mãos da elite, pronto a renunciar assim que decidirem substituí-lo pela vice Kamala Harris. Para além do alinhamento político, devemos também compreender que - sobretudo numa situação complexa como a atual - é imprescindível que a vitória do futuro Presidente seja garantida em sua absoluta regularidade, afastando qualquer suspeita de fraude e tomando conhecimento das provas contundentes, que surgiram em alguns estados. Um presidente proclamado como tal pela grande mídia afiliada ao deep state o priva de qualquer legitimidade e expõe a nação a perigosas interferências estrangeiras, o que já foi comprovado nas presentes eleições" (ontem Trump disse que o verdadeiro problema dos EUA é a imprensa).

    Como último alvo de Viganó aparece Bergoglio e ele espera que "eventuais provas em posse dos serviços secretos venham à tona, especialmente em relação aos reais motivos que levaram à renúncia do Papa Bento XVI e as conspirações subjacentes à eleição de Bergoglio, permitindo assim expulsar os mercenários que ocuparam a Igreja”.

    Por fim, defende que “para acabar com a deep church e restaurar a Igreja Católica, será necessário revelar qual foi o envolvimento dos eclesiásticos com o projeto maçônico-mundialista, bem como os casos de corrupção e os crimes que eles podem ter cometido tornando-se tão chantageáveis, da mesma forma que acontece no campo político para os membros do deep state”.

    À pergunta - “Você parece sugerir que a administração Trump pode ser instrumental para ajudar a trazer de volta a Igreja a um catolicismo pré-Francisco. Como a administração Trump pode fazer isso, e como os católicos americanos podem trabalhar para salvar o mundo desse "reset" globalista?"

    Viganò respondeu: "A subserviência de Bergoglio à agenda mundialista é evidente, e sua contribuição para a eleição de Joe Biden é igualmente evidente. Assim como são evidentes a hostilidade e os repetidos ataques de Bergoglio ao presidente Trump, a quem considera o principal adversário, o obstáculo a ser removido, em vista da realização do Grande Reset. Por um lado, portanto, temos a administração Trump e aqueles valores tradicionais que ela tem em comum com os católicos; de outro, o deep state do autoproclamado católico Biden, subserviente à ideologia globalista e sua agenda perversa, anti-humana, anti-Cristo, infernal”.

    Falando em inferno, por alguns momentos durante a revolta de ontem na cadeira do presidente do Senado americano sentou-se o xamã dos teóricos da conspiração do QAnonJack Angeli, vestido de bisão. Mas ele se parecia muito mais com Sauron, o demônio do Senhor dos Anéis escrito pelo católico Tolkien.

     

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    fonte: http://www.ihu.unisinos.br/605990-estados-unidos-tres-dias-antes-do-assalto-o-incitamento-de-vigano-inimigo-do-papa-francisco