Notas Públicas

    Em discurso, papa prepara Cúria Romana para os tempos difíceis que virão. Pede também que cardeais e bispos não cedam aos conflitos e murmurações dentro dos sagrados palácios.

    Papa Francisco durante seus exercícios espirituais de Quaresma, em 2019
    Papa Francisco durante seus exercícios espirituais de Quaresma, em 2019 (Vatican Media)

    Mirticeli Medeiros*

    Todos os anos, o papa reúne os membros da Cúria Romana para a tradicional saudação de Natal. O momento acontece, geralmente, 3 ou 4 dias antes da celebração do dia 25. Desde 2013, Francisco aproveita a ocasião para "puxar a orelha" de cardeais e arcebispos que atuam nos escritórios do Vaticano. Bento XVI, mais diplomático, fazia um balanço do ano e dava algumas alfinetadas, as quais não eram, na maioria das vezes, direcionadas aos participantes do evento.

    É um discurso bastante aguardado por nós, jornalistas, já que, no atual pontificado, tornou-se um norte para entendermos em que pé está a reforma de Francisco.

    Em 2013, por exemplo, já pensando no projeto de desburocratização do centro administrativo da Igreja, o papa argentino disse que a cúria não poderia ser uma "alfândega pesadamente burocrática, inspetora e inquisidora, que não permite a ação do Espírito Santo e o crescimento do povo de Deus". Em 2014, já com um conselho de cardeais estruturado, incumbido de executar o plano de reforma, ele comparou essa estrutura ao corpo humano que adoece, caso não mantenha uma vida saudável. Apontou as 10 patologias que podem acometer "o corpo" dessa estrutura, entre elas a rivalidade e a vanglória, o acúmulo de bens e os exibicionismos.

    Desta vez, na última segunda-feira, 21 de dezembro, o papa tratou da crise que atinge todos nós. Falou da crise interna da Igreja e daquela provocada pela pandemia. Disse que é um momento propício para "recuperarmos a autenticidade". Concluiu que quem olha para a situação sem esperança acaba fazendo a "a autópsia de um cadáver". Pediu que parem de ler a Igreja "através de categorias de conflito" – esquerda e direita e tradicionalistas e progressistas. Ele percebeu que o coronavírus também acentuou o clima de polarização.

    Francisco está com 84 anos. Como frisei em outros textos, ele está consciente que caminha para a etapa final de seu pontificado. Na reflexão de fim de ano, citada acima, ele relembrou dois momentos que, na sua visão, foram os mais marcantes deste ano: a Urbi et orbi do dia 27 de março e a publicação da sua terceira encíclica, Fratelli tutti, em outubro. Se observarmos bem, são justamente os dois eventos nos quais o papa dá esse tom de despedida.

    O discurso do dia 21 é para ser lido e relido não só por aqueles que têm o privilégio de trabalhar com o papa no Vaticano. Para quem cobra de Francisco uma visão mais "teológica da história", se surpreenderá com o texto. Ele percorre a história da salvação, desde os profetas, para demonstrar que a crise sempre fez parte da trajetória daquele que crê. E chama a atenção para o que cada um de nós fazemos com ela.

    Se "todos estamos no mesmo barco", como Francisco fez questão de salientar em outras reflexões, a postura de alguns católicos, que insistem em canonizar suas respectivas preferências partidárias, entrando no jogo dos "vencidos e vencedores", não condiz com o cristianismo que o papa quer que seja professado. Francisco explica que a lógica dos guetos atrapalha a missão da Igreja, uma vez que uma comunidade de fiéis que cede a essa tendência "imporá uma lógica uniforme e uniformizadora, muito distante da riqueza e pluralidade que o Espírito Santo deu à Igreja", ressalta.

    "Subjacente a cada crise, há sempre uma justa exigência de atualização: é um passo em frente. Mas se quisermos de verdade uma atualização, devemos ter a coragem duma disponibilidade sem limites; há que deixar de pensar na reforma da Igreja como remendo dum vestido velho ou mera redação duma nova constituição apostólica. A reforma da Igreja é outra coisa", completa.

    Após a afirmação de Francisco, o que podemos esperar para o ano que vem? Certamente, a constituição apostólica da reforma da Cúria Romana, que substituirá a Pastor Bonus (1988), de João Paulo II, será publicada. A partir daí, Francisco formalizará "o seu caminho sem volta" em relação à expulsão do "espírito de corte" que há muito tempo paira sobre as estruturas do Vaticano. Ao menos esse é o objetivo. Desde 2013 ele trabalha nisso com afinco.

    Mas como a reforma de Francisco é marcada principalmente por uma "revolução espiritual", como ele já reiterou, o discurso à Cúria Romana, do dia 21, é esse pontapé inicial para coroar essa intenção. Ele reforça para os cardeais que o testemunho nesse período difícil vale mais que a excelência do trabalho. E que a verdade do Evangelho sempre traz uma novidade; não é algo estático, como uma peça de museu.

    Dom Helder Câmara, o bispo pernambucano que está em processo de canonização (já na fase romana) também foi citado pelo papa no discurso. Ao pedir que seus colaboradores não se esqueçam dos pobres, usou uma famosa frase do prelado brasileiro, o qual chamou, inclusive, de santo: "Quando cuido dos pobres, me chamam de santo; mas quando me pergunto e lhes pergunto: 'Por que tanta pobreza?', me chamam de comunista". Vem novidade em relação à causa, em 2021?

    *Mirticeli Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália e é colunista do Dom Total, onde publica às sextas-feiras