Notas Públicas

    O que vimos nessa semana nos Estados Unidos é uma clara declaração de que muitos brancos preferem viver em uma ditadura branca do que em uma democracia multirracial.

    A opinião é do Pe. Bryan N. Massingale, professor de teologia na Fordham University, em Nova York, e autor de “Racial Justice and the Catholic Church” [Justiça racial e a Igreja Católica]. O artigo foi publicado em America, 08-01-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

    Eis o texto.

    Enquanto assistia às cenas inimagináveis de insurreição na capital da nossa nação, onde todo o nosso Congresso foi mantido refém pelas ações de uma multidão iludida e perturbada, eu fiquei cheio de raiva. Raiva justa. Porque, embora o que estejamos assistindo seja horrível, não é surpreendente.

    Este é o resultado inevitável de quatro anos de mentiras do presidente Donald Trump. Quatro anos do presidente demonizando seus oponentes. Quatro anos de abusos de poder inexplicáveis. Quatro anos de uma retórica imprudente e de ameaças veladas de violência. Quatro anos alimentando o ressentimento racial, a ansiedade e o medo dos brancos. De apelos diretos a seus capangas e de incitação às gangues do Proud Boys para “ficarem de prontidão”. E de repetidas recusas de sua parte a prometer uma transição pacífica de poder.

    Não nos enganemos, este é o único lugar a que a presidência de Donald Trump poderia levar: um violento ataque à democracia da nação.

    Não podemos fingir surpresa, porque, durante anos, o cerne do apelo do Sr. Trump foi alimentar o ressentimento branco diante da rosto em mudança dos Estados Unidos. O que vimos nessa semana é uma clara declaração de que muitos brancos preferem viver em uma ditadura branca do que em uma democracia multirracial.

    Se democracia significa compartilhar o poder com pessoas não brancas, especialmente negras, então eles não querem fazer parte disso. Hoje, essa é a consequência inevitável da tolerância da nação ao racismo branco.

    Mas Trump não é o único responsável por esse desastre. É aqui que a sabedoria da tradição moral católica é dolorosamente relevante. São Tomás de Aquino ensina que uma pessoa compartilha o mal da outra “omitindo o conselho que teria impedido a transgressão” e “silenciando, não evitando, não denunciando”.

    O que testemunhamos em Washington é uma consequência direta de quatro anos de cumplicidade permissiva, apaziguamento cínico e silêncio covarde. É a consequência daqueles que sabiam que o presidente é grosseiramente incompetente para o cargo, mas não disseram nada. É o resultado daqueles que repetiram as suas mentiras sobre uma eleição roubada para obter favores de curto prazo. É a consequência de líderes políticos que se recusaram a enfrentar a sua destruição sem precedentes das normas democráticas por medo de um tuíte presidencial.

    É também a consequência do silêncio cúmplice e do apoio ativo de líderes religiosos que se recusaram a enfrentar o câncer do nacionalismo branco que esse presidente endossa e que desculparam todas as formas dos seus maus feitos, incompetência e brutalidade, dizendo que isso não era o “mal preeminente” que deveria determinar o voto de um católico.

    Papa São João Paulo II declarou: “A verdade é a mãe, a base e o fundamento da justiça”. O que vimos nessa semana é a consequência de quando a verdade é ignorada, pisoteada e descartada. E de quando mentiras são repetidas, permitidas ou cinicamente adotadas. Não podemos ter justiça quando o simulacro passa por realidade, quando a ilusão racista passa em silêncio, quando o cinismo político passa por serviço público.

    A questão fundamental diante da nação é: vamos nos esforçar para ser uma nação de liberdade e justiça para todos? Ou apenas para alguns? Para aqueles que são brancos e estão zangados? Para aqueles que se parecem conosco e rezam como nós?

    Enquanto não enfrentarmos essas questões, não ousemos agir surpresos diante do horror que vimos no Capitólio nessa semana. Ou quando isso acontecer de novo.

     
     

    EUA: por dentro do coração de treva. Artigo de Alessandro Portelli

    “Foi justamente a normalidade de ontem que preparou o desastre de hoje. O trumpismo é o resultado de meio século de demolição do sentido do bem comum e das instituições: quando Reagan dizia que o Estado é o problema e não a solução, ele abria as portas para uma antipolítica qualquer, legitimada por uma ideologia neoliberal à qual a esquerda não soube opor uma resistência significativa (às vezes, permanecendo enfeitiçada por ela, veja-se Clinton)”.

    O comentário é de Alessandro Portelli, historiador italiano referência nos estudos de História Oral, ex-professor da Universidade de Roma “La Sapienza” e fundador do Circolo Gianni Bosio, um coletivo dedicado ao estudo do folclore, história oral e cultura popular.

    Segundo ele, as raízes da atual situação "estão no lado obscuro da mais luminosa tradição estadunidense: por exemplo, em uma visão da liberdade conjugada desde o início em termos individuais (sem fraternidade, sem igualdade) e, portanto, disponível para ser lida em termos antiestatais".

    O artigo foi publicado em Il Manifesto, 08-01-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

    Eis o texto.

    Muitos anos atrás, desarmado diante da tragédia do 11 de setembro, eu começava um artigo no jornal Il Manifesto citando Kurt Vonnegut: “Não há nada de inteligente a ser dito sobre um massacre”.

    Diante dos fatos de hoje, sinto-me do mesmo modo: não há nada de inteligente a ser dito, porque não sabemos suficientemente como e por que aconteceu aquilo que aconteceu. Ouço comentaristas renomados que insistem nas mentiras de Trump e no fato de que os seus seguidores vivem em uma realidade alternativa feita de notícias falsas; tudo verdade, mas a maldade de um homem e a credulidade das massas não bastam para nos fazer entender como foi possível e como é possível que isso ainda aconteça – ainda mais em um país nascido do Iluminismo, onde se pensava que a democracia estivesse interiorizada e o analfabetismo havia sido erradicado há dois séculos.

    Mas existe um coração de treva nos Estados Unidos. Vemos os seus contornos, mas não conseguimos ver o que há dentro dele. Se hoje há mais de 70 milhões de cidadãos estadunidenses que votam em Trump, e milhares deles (até mesmo dentro da polícia) prontos para pegar em armas em seu nome, devemos nos perguntar de que modo nós, progressistas e liberais cultos, contribuímos para tornar possível essa realidade.

    Por isso, trata-se de entrar nesse coração de treva e tentar entender, não para lhe dar razão, mas para reconhecer as causas e tentar enfrentá-las e resolvê-las. Falar de “caipiras”, de “bárbaros”, de “inimigos da democracia” só serve para exorcizá-los, para afastá-los de nós, para dizer que nós não temos nada a ver com isso (talvez cutucando implicitamente os velhos preconceitos sobre um EUA totalmente feito de caubóis ignorantes, violentos e ingênuos – como se não fôssemos um país onde metade das pessoas se recusam a se vacinar, como se as mesmas pulsões que desencadearam a agressão em Washington não atravessassem toda a Europa, hoje de forma nem tão direta e violenta, mas não menos assustadora.

    Por que cada vez menos pessoas acreditam na mídia? Por que cada vez menos pessoas confiam nas instituições e no Estado? Por que cada vez menos pessoas acham que têm os meios para decidir sobre sua própria vida? Que mídia, que instituições, que democracia estamos lhes oferecendo? Por que, enquanto enchemos a boca para falar dos valores da democracia, há tão pouca democracia, e cada vez menos, na vida das pessoas? E por que a essa demanda implícita de importar alguma coisa, de ter algum controle sobre a própria vida, não somos capazes de dar respostas democráticas, de esquerda, de igualdade, dignidade e direitos, e deixamos que o pior da direita alimente e cavalgue o rancor disforme com as suas explicações envenenadas e falsas?

    Olhando as imagens na TV, fiquei impressionado com uma coisa que não foi enfatizada por ninguém: havia muitíssimas mulheres (três das quatro vítimas mortas nos confrontos são mulheres). O que elas estavam fazendo lá? E me lembrei de uma manchete que havia lido no dia anterior no site da Bloomberg Wealth, não exatamente uma fonte de esquerda: “Milhões de estadunidenses esperam perder suas casas na tempestade da Covid”.

    Isso tem algo a ver? Diretamente, talvez não, mas, como estado de ânimo generalizado, certamente sim. Isso só acontece lá, depois da crise de 2008? O que nós fazemos diante disso? Elas também não são mulheres? Ainda tem alguém que fala de direito à moradia?

    Ashly Babbit, a primeira vítima dos confrontos, era uma ex-militar que se definia como patriota, amante do seu país e da liberdade (e não vinha de um Estado vermelho de caipiras do Sudeste, mas sim da rica, culta, moderna e democrata Califórnia). Paradoxalmente, enquanto agridem aquele que os nossos colunistas chamam de “templo da democracia”, os manifestantes pró-Trump estão convencidos de que eles são os defensores de uma democracia “roubada” pelas fraudes eleitorais – que eles são “we, the people”.

    Obviamente, é um erro trágico. Mas como é possível que – apesar de 51 comissões, Estado por Estado, republicanas e democratas, e até expoentes da direita dura do Partido Republicano terem confirmado que as eleições foram justas – eles estão tão obstinados em acreditar no contrário? O fato é que a sensação de se estar jogando um jogo manipulado é uma sensação crescente.

    Por outro lado, há quatro anos, não foram os líderes do Partido Democrata que lançaram dúvidas sobre a eleição de Trump, defendendo que ela havia sido manipulada e falseada por interferências indevidas? Essa também foi uma primeira vez na história estadunidense e certamente não contribuiu para fortalecer a confiança no sistema eleitoral e na transparência das instituições.

    E deixemos de lado a eleição de 2000, os votos contestados de Bush, a decisão da Suprema Corte que conferira autoridade à vitória de Bush... São coisas que vêm de longe. Trump é mais um efeito do que uma causa (um efeito que retroage e agrava as causas).

    Dizer que tudo isso é culpa de Trump, que é um mentiroso corrupto, ou dos “caipiras” ingênuos que vivem na realidade alternativa das notícias falsas é uma forma de dizer que nós não temos nada a ver com isso (não é apenas uma doença estadunidense; SalviniBrexitOrbán ensinam isso), para não pôr em discussão a normalidade, como se valesse para o trumpismo aquilo que Benedetto Croce dizia sobre o fascismo, uma invasão dos hicsos, uma interrupção temporária depois da qual voltamos ao “business as usual”, ao “heri dicebamus”.

    Em vez disso, foi justamente a normalidade de ontem que preparou o desastre de hoje. O trumpismo é o resultado de meio século de demolição do sentido do bem comum e das instituições: quando Reagan dizia que o Estado é o problema e não a solução, ele abria as portas para uma antipolítica qualquer, legitimada por uma ideologia neoliberal à qual a esquerda não soube opor uma resistência significativa (às vezes, permanecendo enfeitiçada por ela, veja-se Clinton).

    Mas, antes ainda, as raízes também estão no lado obscuro da mais luminosa tradição estadunidense: por exemplo, em uma visão da liberdade conjugada desde o início em termos individuais (sem fraternidade, sem igualdade) e, portanto, disponível para ser lida em termos antiestatais. E certamente não foi Trump quem inventou a guerra civil e o seu infinito pós-guerra, as bandeiras sulistas desfraldadas nessa semana em Washington pelos manifestantes, o escravismo, a segregação, a “southern strategy” de Nixon, a supremacia branca – ainda celebrada por inúmeras estátuas e monumentos corajosamente defendidos dos inimigos do politicamente correto...

    Uma tradição literária de mais de um século prefigurou riscos de involução autoritária nos EUA – “Caesar’s Column”, de Ignatius Donnelly (1890), “O salto de ferro”, de Jack London (1907), “Um milhão conta redonda”, de Nathanael West (1934), “Não vai acontecer aqui”, de Sinclair Lewis (1935), até “A parábola dos talentos”, de Octavia Butler (1998), e “Plot Against America”, de Philip Roth (2004 e a relativa série de TV), e meia ficção científica distópica. O inimaginável já havia sido imaginado; lá não havia acontecido isso (na Itália sim), mas podia acontecer e pode acontecer. As provas gerais já haviam ocorridos.

    Em 2016, uma milícia armada ocupou um parque nacional no Oregon por 41 dias para contestar o uso federal das terras públicas; no dia 1º de maio de 2020, uma multidão armada invadiu o parlamento de Wisconsin para protestar contra o confinamento, e a polícia (como nessa semana em Washington) os deixou entrar. Ninguém reconheceu, então, esses fatos de armas como sintomas de algo mais amplo, mais profundo e grave - “você sabe como são os estadunidenses…”.

    Hoje, encontramos alívio na civil tranquilidade de Biden. O novo presidente fala de reconciliação e de recuperação, mas me vem à mente “Dos Passos vs. Sacco e Vanzetti”, há quase um século: “Bem, somos duas nações”. Foram necessárias gerações para dividir assim os EUA. Colocá-los novamente juntos será um processo longo e difícil, e de resultado incerto.

    Eu não espero tanto em Biden, mas sim na possibilidade de que alguém entre as pessoas que estão ao seu redor tenha aquela imaginação e radicalidade necessárias para apontar um caminho novo. Não por acaso, muitos dos textos distópicos que eu mencionei acima foram escritos nos anos 1930 ou fazem referência a eles: a época de outra crise, na qual não faltaram pulsões de extrema direita, mas à qual Roosevelt soube responder com uma reviravolta, uma mudança de paradigma, um New Deal centrado na construção do Estado social, na força do movimento operário, na orientação à esquerda de grande parte dos artistas e dos intelectuais.

    As condições mudaram (e nós também contribuímos para desmontá-las), mas é preciso um salto de imaginação do mesmo tipo e da mesma amplitude, um New Deal diferente, capaz de começar a recompor o país não a partir da mediação a partir de baixo, mas reconhecendo a principal lição do “Black Lives Matter”: o coração da democracia é o conflito, e a democracia não consiste em zerá-lo, mas em fazer com que ele possa ocorrer sem que uns atirem nos outros.

    A reconciliação começa com o restabelecimento das regras, mas, acima de tudo, com a reinvenção delas, para que sejam verdadeiramente compartilhadas.

    fonte: http://www.ihu.unisinos.br/606008-eua-por-dentro-do-coracao-de-treva-artigo-de-alessandro-portelli

    “Biden na Casa Branca significa a derrota dos soberanistas católicos.” Entrevista com Maria Antonietta Calabrò

    Com a certificação da vitória eleitoral por parte do Congresso dos Estados Unidos, nessa quinta-feira, 7, após o insano ataque da quarta-feira, 6, por parte das “brigadas” trumpianas ao Capitólio, não há mais obstáculos para Joe Biden em relação à presidência dos EUA. O presidente eleito fará seu juramento, junto com a vice-presidente, Kamala Harris, no próximo dia 20 de janeiro, em Washington.

    Os confrontos dessa quarta-feira no Capitólio, instigados por Donald Trump, provocaram uma ferida sem precedentes na democracia estadunidense. Um país dividido e enraivecido pela propaganda extremista dos círculos soberanistas.

    extrema direita católica também tem a sua responsabilidade (veja-se, por exemplo, Steve Bannon e o ex-núncio Carlo Maria Viganò). Não será simples para Biden fazer uma obra de pacificação. Ele certamente encontrará um apoio importante no Papa Francisco. A eleição do católico Biden significa, de fato, a derrota dos inimigos soberanistas do papa.

    Vaticano também está vivendo um momento importante: a reforma das suas finanças por obra do Papa Francisco. Mas ainda há episódios a serem esclarecidos, como as notícias provenientes da Austrália.

    Sobre esses temas, Pierluigi Mele dialogou com a jornalista italiana Maria Antonietta Calabrò, que trabalhou por 30 anos no jornal Corriere della Sera e atua hoje no L’Huffington Post. A entrevista foi publicada em Confini, 07-01-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

    Eis a entrevista.

    Nessa semana, o Congresso ratificou a eleição de Joe Biden como presidente dos Estados Unidos. Sabemos como é profunda a ferida infligida à democracia estadunidense pelo ataque ao Congresso por parte dos fanáticos trumpianos. Para Biden, a primeira tarefa é pacificar o país. E, sobre isso, acho que um apoio importante poderá vir do Papa Francisco. Haverá uma nova temporada na relação com o Vaticano?

    Certamente. Biden é o segundo católico a ser eleito presidente dos EUA depois de John Fitzgerald Kennedy, há 60 anos. Biden falou abertamente sobre a sua fé durante seu discurso de investidura na Convenção Democrata de Milwaukee e explicou como isso foi importante para ajudá-lo a superar os graves lutos que ele sofreu ao longo da sua vida. No início da campanha eleitoral, a sua equipe preparou um vídeo mostrando um breve encontro em uma audiência geral com o Papa Francisco como uma “bênção” papal à sua escalada à Casa Branca.

    Ao longo das semanas, a questão “católica” para os democratas permaneceu em segundo plano. Mas não é apenas pela sua fé pessoal que a vitória de Biden “liberta” o Papa Francisco de um possível xeque-mate, que poderia ser hipotetizado em caso de uma vitória de Trump. Por motivos geopolíticos e por motivos “internos” à Igreja Católica, isso coloca novamente o Trono do mundo de alguma forma em sincronia com o Altar. E, portanto, de alguma forma, evitará as fortes tensões que surgiram no fim do pontificado de Ratzinger com a eleição de Obama e nos anos da presidência Trump para Francisco.

    Quem não se lembra das iniciativas soberanistas de Steve Bannon, da aliança com os cardeais “conservadores” (começando pelo cardeal Burke), gradualmente contida após a sua saída da Casa Branca até a sua recente prisão em relação a crimes financeiros relacionados com a construção do muro anti-imigrantes com o México? Da aliança na Itália com Matteo Salvini, o político com a camiseta “Meu papa é Bento”? O voto católico (26% da população) foi decisivo para as vitórias de Obama, mas nos últimos anos os EUA estão cada vez mais polarizados: porque “mover-se” para a direita para um católico estadunidense também significou se distanciar do pontificado de Francisco.

    A propaganda do ex-núncio Dom Carlo Maria Viganò martela há mais de dois anos, desde agosto de 2018, contra o papa, cuja renúncia ele pediu várias vezes. Viganò convocou orações pela reeleição de Trump e ganhou o apoio público do próprio Trump. Enquanto isso, com um movimento sem precedentes, o secretário de Estado, Mike Pompeo, no fim de setembro, acusou o Vaticano de imoralidade pelos seus acordos diplomáticos com a China em matéria de escolha dos bispos. Esse processo agora, com o próximo início da presidência de Biden, vai se interromper.

    O ex-núncio Viganò “patrocinou” ações em favor de Trump e contra Biden até poucos dias atrás.

    Sim. Três dias antes do ataque ao Congresso dos EUA para “bloquear” a proclamação da vitória de Joe Biden, o ex-núncio Carlo Maria Viganò concedeu uma entrevista (no dia 1º de janeiro, festa de Maria, Mãe de Jesus) a Steve Bannon, publicada no dia 3 de janeiro no LifeSiteNews (na ItáliaStilum Curiae), na qual exortou os “filhos da luz” a agirem “agora”. Diante do que aconteceu no Capitólio, pode-se muito bem dizer que os conspiradores receberam uma bênção “católica” do polêmico arcebispo, cujo pupilo é Donald Trump, pelo menos desde 2018, e cujo inimigo número um é o Papa Francisco, que, segundo ele, seria cúmplice do Grand Reset, da sujeição à China (se há, porém, um político que enfraqueceu os EUA em favor da China negando a pandemia, é Trump). Com o grito “Deus o quer”, grito de guerra medieval para alistar os cruzados a serem enviados à Terra Santa para libertar o Santo Sepulcro.

    De fato, uma das perguntas de Bannon a Viganò dizia assim: “O senhor se mostrou confiante de que Deus deseja uma vitória de Trump para derrotar as forças do mal?”. Note-se o verbo no presente. Mas Viganò não foi apenas um protagonista contra Francisco. Hoje, ele se inscreve entre os partidários de Bento XVI, mas, na realidade, foi ele quem alimentou o vazamento de documentos confidenciais durante o primeiro Vatileaks e quem escreveu falsidades para Bento XVI a fim de não deixar o seu cargo de poder na Cúria. Ele é um personagem central não da na geopolítica vaticana, mas também do jogo financeiro. Na entrevista, ele quase exigiu a publicação de provas de corrupção da “deep church” [Igreja profunda], nas mãos dos serviços secretos.

    O papa acaba de aprovar uma reforma financeira muito importante para a Santa Sé, e ventos de tempestade estão vindo da Austrália. Refiro-me à notícia, divulgada pela mídia australiana, de que uma soma enorme de 1,8 bilhão de euros [11,9 bilhões de reais] teria sido transferida do Vaticano para a Austrália. O Vaticano, por meio de uma autoridade, comentou a notícia como “ficção científica”. E a Igreja australiana também negou ter sabido algo sobre isso. O que tudo isso pode ser, na sua opinião? É mais uma tempestade pela frente?

    Desde o dia 1º de janeiro deste ano, entrou em vigor a reforma do Papa Francisco sobre a centralização dos cofres vaticanos. Refiro-me, em particular, à transferência de fundos (o chamado terceiro banco) da Secretaria de Estado à APSA. Tudo isso é uma verdadeira revolução, que foi desencadeada pelo chamado caso Becciu, com a obscura história da aquisição do prédio em Londres. A questão é que o papa teve que chegar a isso em três movimentos sucessivos: uma carta ao cardeal secretário de Estado, Parolin, em agosto, depois a nomeação da comissão para a gestão da transferência de fundos em outubro, finalmente o motu proprio com força de lei em dezembro.

    Voltando à Austrália, porém, é preciso compreender que esse processo relativo aos fundos da Secretaria de Estado ainda não terminou e só se implementará definitivamente, salvo imprevistos, no dia 4 de fevereiro. Ainda falta um mês. A agência de combate à lavagem de dinheiro australiana, Austrac, constatou 47.000 transações em seis anos (2014-2020) do Vaticano à Austrália. Se não é dinheiro vaticano, mas “apenas” passaram por entidades vaticanas, de que dinheiro se trata? E, acima de tudo, de quem? As notícias da imprensa australiana falam de contas cifradas de expoentes leigos.

    É preciso lembrar que, em 2014, o cardeal Pell denunciou publicamente a existência de fundos extraorçamentários no Vaticano de um montante próximo ao número monstruoso de que estamos falando agora (mais de 1,4 bilhão de euros [9,3 bilhão de reais]). E que, desde 2014, começou a limpeza das contas do IOR, que também é um processo muito longo que durou anos. A uma pergunta específica que eu fiz hoje, a Austrac respondeu que está em curso uma revisão completa de todas as transferências que foram realizadas, em colaboração com a ASIF vaticana, ou seja, a agência de combate à lavagem de dinheiro liderada por Carmelo Barbagallo. Na verdade, existe um protocolo de colaboração bilateral entre a Austrac e a ASIF. É preciso verificar quem são os remetentes e quem são os beneficiários. E se dentro desse rio de dinheiro também houve pagamentos para condicionar o processo penal por pedofilia contra Pell, como declarou aos magistrados vaticanos um dos investigados no caso do edifício de Londres, que depois se “arrependeu”.

    Chegamos ao chamado “caso Becciu”. Em que ponto estamos na investigação?

    Em andamento, como se diz.

    Quais são os contramovimentos de Becciu?

    O arcebispo Becciu sempre negou ter cometido crimes e, em particular, sempre negou ter interferido no processo penal contra Pell.

    Que reações existem na Cúria?

    O enxugamento institucional da Secretaria de Estado (um dicastério já sem “carteira”) certamente é uma mudança, eu diria, maior, que também exigirá que se reescreva o rascunho quase pronto da Praedicate Evangelium, a constituição apostólica que deverá substituir a Pastor bonus, de João Paulo II. Ao mesmo tempo, a figura do cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado, será inevitavelmente redimensionada, e com ele, o chamado “partido italiano”.

    fonte: http://www.ihu.unisinos.br/606007-biden-na-casa-branca-significa-a-derrota-dos-soberanistas-catolicos-entrevista-com-maria-antonietta-calabro

     

    Do Capitólio ao Planalto

    O Brasil ingressa em 2021 sob a tripla e ameaçadora sombra da catástrofe humanitária, do desastre social e da crise institucional, escreve Osvaldo Coggiola, professor titular no Departamento de História da USP, em artigo publicado por OutrasPalavras, 08-01-2020.

    Eis o artigo.

    O que aconteceu no Capitólio norte-americano esteve longe de ser a reação “espontânea” e desorganizada de uma base fascistoide frustrada, ou o último suspiro de um personagem (Trump) politicamente liquidado. Foi uma ação meticulosamente preparada, a tensão no Senado já estava instalada antes da irrupção dos supremacistas. O próprio Donald Trump convocou seus apoiadores a se mobilizarem.

    A escalada fascista não agiu como uma gangue “descontrolada”, mas como uma fração do Estado. Quando Trump pediu a seus apoiadores que se acalmassem e “fossem para casa”, ele inadvertidamente ressaltou a natureza paraestatal do motim: o instigador também tinha autoridade suficiente para organizar a retirada.

    No seu apelo dramático na TV, Joe Biden se dirigiu a ele como presidente em exercício, lembrando-lhe suas obrigações institucionais, e apelando para que ele ordenasse o retiro de suas “tropas”, usando para isso os meios de comunicação em rede nacional. As tropas paraestatais de Trump tiveram mortos, que serão transformados em “mártires” de uma escalada fascista, que fez uma primeira (só primeira) demonstração de que não vacila, nem vacilará, em usar métodos de guerra civil.

    A sombra do fascismo ianque se projeta sobre o mundo, sobre a América Latina, sobre o Brasil. O ano político brasileiro de 2021 começou em finais de 2020, com as barbaridades proferidas pelo titular do Poder Executivo pondo em dúvida a prisão e as torturas recebidas pela ex-presidenta Dilma Rousseff durante a ditadura militar, fazendo de passada uma apologia da ditadura e da tortura. Todo o arco político brasileiro, de direita à esquerda, repudiou as declarações de Bolsonaro: até o candidato de Bolsonaro à presidência da Câmara, Arthur Lira, julgou conveniente tomar distância das bestialidades presidenciais. Que estão longe de ser, como suposto por muitos, um descontrole devido à instabilidade mental e emocional (reais) de Bolsonaro, pois são a expressão consequente de um projeto político, ora fazendo água por todos os lados, o de elevar o Poder Executivo por cima dos demais poderes da República, numa espécie de bonapartismo pré-fascista, para conter a crise política derivada da falência, interna e internacional, do golpe “institucional” de 2016.

    O Brasil ingressa em 2021 sob a tripla e ameaçadora sombra da catástrofe humanitária, do desastre social e da crise institucional. Em que pesem os avanços internacionais e locais sobre a vacina contra a COVID-19, cujas vítimas oficiais já ultrapassam a fatídica e simbólica cifra de 200 mil (consideradas as subnotificações, segundo estimado pelo insuspeito ex-ministro de SaúdeNelson Taich, já devem se aproximar de 250 mil), as possibilidades de combate à pandemia diminuem dramaticamente porque o governo Bolsonaro fez de tudo para descoordenar o enfrentamento contra ela, minimizou a crise sanitária, desestimulou o uso de máscaras e o distanciamento social e difundiu campanha contra a vacinação mediante fake news e campanhas fascistas de ignorância obscurantista.

    No plano econômico-social, o orçamento especial de 2020 criou um abono emergencial de R$ 600,00 que protegeu (miseravelmente) mais de 65 milhões de pessoas; um auxílio salarial que protegeu (de igual modo) quase dez milhões de trabalhadores, medidas que contaram com o posicionamento contrário do governo federal, que só as implantou por decisão do Congresso ou do Poder Judiciário. A queda econômica de 4% a 5% do PIB só não será maior devido à demanda propiciada pelas medidas de proteção. Com o fim da vigência desse orçamento, 65 milhões ficarão sem auxílio; dez milhões sem seguro-desemprego, e a quebradeira multiplicará a desocupação e a pobreza.

    bolsonarismo foi o grande derrotado do pleito eleitoral municipal de novembro de 2020. Dos candidatos às prefeituras das capitais apoiados publicamente pelo presidente, apenas o de Rio Branco foi eleito. O fortalecimento do “Centrão” direitista e a relativa estagnação da esquerda (PT+PSOL não cresceram eleitoralmente em relação a 2016), apontadas pelos analistas nos seus balanços das eleições, não foram tampouco a nota dominante. No Rio de Janeiro e em São Paulo, as abstenções e votos nulos superaram por larga margem os votos concedidos aos prefeitos eleitos, ficando em 46,4% e 41% do total dos eleitores, respectivamente.

    A derrota política de Donald Trump nos EUA, as mobilizações multitudinárias na América do Sul (incluídas as multitudinárias mobilizações das mulheres argentinas que conquistaram o direito ao aborto legal por lei) afundaram os governos direitistas de BolíviaChilePeru (e ameaçam o da Colômbia), reformularam também a agenda política brasileira. A possibilidade de impeachment de Bolsonaro ficou centrada na eleição da presidência da Câmara de Deputados, a única habilitada para aceitar o tratamento de um pedido de impedimento, a serem realizadas em inícios de fevereiro.

    Rodrigo Maia (DEM) anunciou a formação de um bloco de onze partidos de centro, de direita e “de esquerda” para apresentar uma candidatura ao comando da Casa. O candidato do CentrãoBaleia Rossi (MDB) enfrentará Arthur Lira (PP), que tem o apoio do presidente Jair Bolsonaro e de, segundo se diz, 190 deputados. O grupo de Maia é formado pelas bancadas de DEM, PSDB, MDB, PSL e Cidadania, ao centro e à direita, além de PTPSBPDT e PCdoBPV e Rede, “à esquerda”. O PSOL deve lançar candidato próprio, mas seu apoio a Rossi contra Lira no segundo turno seria certo. Os onze partidos que apoiam o bloco têm, juntos, 281 deputados. Para ganhar a eleição no primeiro turno, são precisos 257 votos.

    Junto a isso, o Congresso deverá votar a autonomia do Banco Central. Essa medida será decisiva, pois, se o BC já é uma criatura nas mãos dos interesses do grande capital financeiro, ainda não o é de modo completo, pois admite a interferência do Poder Executivo, renovado pelo escrutínio eleitoral. Com sua independência, nas palavras do economista Paulo Nogueira Batista Jr., ele ficará à mercê “da influência desmesurada de interesses financeiros privados”, pois, “removido esse contrapeso, o domínio da turma da bufunfa sobre o BC ficará perfeito e completo. O que antes era posse ou usucapião se converte em propriedade, garantida por lei” [1].

    A pauta parlamentar está dominada pelos interesses do grande capital, num país em que mais de 20 milhões de pessoas foram para a inatividade, 8,5 milhões para o trabalho remoto, cerca de cinco milhões continuaram no “desalento” e quase 14 milhões ficaram em desemprego aberto. Milhões continuaram trabalhando com alto risco tanto no serviço de saúde como nas “atividades essenciais”. Muitos morreram trabalhando, principalmente trabalhadores da saúde.

    Com a vitória do Centrão nas eleições municipais, este bloco se transformou num bloco de poder. Independentemente do destino imediato do governo Bolsonaro, está em curso a configuração de um “pacto de governança”, que abrange desde grupos de extrema-direita, como o PSL, ora abrigados no Centrão, até o próprio PSOL, passando por todo o arco de direita, centro e “centro-esquerda” (pois de algum modo precisa ser catalogado o PT).

    A questão do impeachment de Bolsonaro está subordinada a esse pacto, pois a abertura de um processo parlamentar de impedimento criaria uma crise política escancarada, que pode favorecer enormes mobilizações, a exemplo do que acontece nos países vizinhos, restando a possibilidade de transformar o alucinado capitão em “rainha da Inglaterra” com data de vencimento (2023), o que também é um tiro no escuro, porque pode favorecer mobilizações maiores ainda, pelos motivos opostos. Existem inúmeros pedidos de afastamento do presidente, que Rodrigo Maia optou por manter trancados em sua gaveta, e passarão agora para seu sucessor.

    Esse impasse joga água no moinho de Jair M. Bolsonaro, que redirecionou seu bloco parlamentar para atrair o Centrão e os inúmeros partidos do fisiologismo. Na política econômica, uma vez que suas pretensões eleitorais são contraditórias à manutenção da austeridade a qualquer custo, se situam os problemas principais, devido à oposição do grande capital financeiro a qualquer mudança no domínio de Paulo Guedes. A base política fascista de Bolsonaro, do seu lado, inspirada pelo exemplo da base “trumpista”, se prepara para ações de cunho semelhante no Brasil.

    Como combater essa perspectiva, de fato? Para a população trabalhadora (empregada ou não) está posta uma agenda política de urgência, relativa a emprego, salário, ajuda de emergência aos mais necessitados, educação e, principalmente, saúde, mediante uma vacinação universal, imediata, segura e gratuita. Para conquistá-la, é preciso um programa, em primeiro lugar, anti-imperialista, contra os laboratórios privados multinacionais que detêm a patente das vacinas anti-Covid (que, na Argentina, chegaram a exigir a penhora de recursos naturais como garantia de pagamento das doses), ou seja, pela quebra dessas patentes. E, também, classista, pois a luta pelo emprego, o salário e a educação pública não pode estar subordinada aos interesses e a salvação do grande capital. E um programa anti-imperialista e classista requer uma força política para impulsioná-lo.

    Devido à configuração e história políticas da esquerda e do sindicalismo brasileiros, a luta por essa força organizada passa por uma política frentista; pela exigência, em primeiro lugar, da ruptura política com a burguesia das organizações e movimentos sociais, sindicais e políticos, da classe trabalhadora, pela independência política de classe. Quase todas as propostas de “frente ampla progressista (ou anti-Bolsonaro)” ou de “frente de esquerda” postas na praça se caracterizam, pelo contrário, por incluir representantes políticos da burguesia, ou seja, por tender pontes em direção do grande capital, o que significa que nascem castradas em sua projeção política e social. Muitos ativistas respondem a esses políticas, bem compreendidas ou apenas intuídas, pelo abstencionismo político, o que deixa o campo aberto para as propostas de conciliação de classes.

    O fascismo não suspende a luta de classes, e só pode ser derrotado com os métodos e o programa da luta de classes. Nem conciliação de classes, nem autoproclamação faccional e sectária: por uma frente de esquerda classista que chame, e faça campanha, pela ruptura das organizações operárias, camponesas e juvenis com a burguesia, com base num programa e numa ação de classe independentes. Essa é a única maneira de defender a democracia contra o fascismo.

    Nota

    [1] Paulo Nogueira Batista Jr., A autonomia do Banco Central. In: A Terra é Redonda.

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    fonte: http://www.ihu.unisinos.br/606005-do-capitolio-ao-planalto