No Brasil, a indústria está deixando o país enquanto a agricultura vive um “boom”, afastando ainda mais a perspectiva de uma diversificação econômica e aumentando as desigualdades.



A reportagem é de Julien Dourgnon, publicada por Alternatives Économiques, 02-07-2021. A tradução é de André Langer.

Em janeiro de 2021, a Ford anuncia o fechamento definitivo de sua última linha de montagem ainda em atividade no estado de São Paulo. A montadora americana foi a primeira gigante automobilística a colocar os pés no país em 1921 e não o deixou mais desde então. O fechamento jogou 2.500 operários no desemprego; em 2012, a empresa tinha 14.500 trabalhadores.

Após a saída da Mercedes-Benz, a redução das capacidades produtivas da Honda e da Nissan, o anúncio da Ford caiu como uma bomba no meio econômico. Com o passar do tempo, a ampliação do mercado interno e as chamadas políticas pró-ativas de “substituição das importações”, compostas por sobretaxas alfandegárias para os veículos importados e, ao contrário, as desonerações tributárias para os veículos produzidos localmente, o Brasil conseguiu atrair os principais fabricantes mundiais ao seu território. Esse tempo parece ter chegado ao fim.

Esta indústria não é a única a estar a meio mastro. Com a saída da japonesa Sony, da coreana LG, da fabricante franco-suíça de cimento Lafarge-Holcim, para citar apenas algumas, o descontentamento está afetando setores inteiros da indústria de transformação brasileira. O país claramente não é mais popular entre os grandes grupos industriais multinacionais. Parcialmente responsável por essa situação, é claro, é a pandemia de Covid-19. Em 2020, a produção de automóveis no Brasil caiu 31% sob o efeito combinado das restrições sanitárias impostas aos trabalhadores, do enfraquecendo da demanda interna e das exportações, especialmente para outros países da América Latina.

Esta conjuntura excepcional atingiu também as principais indústrias nacionais, em particular a metalúrgica, do vestuário e de equipamentos de transporte localizados principalmente no sul do país. Se, em 2020, o setor industrial declinou em proporções próximas às da economia em geral, queda de apenas 4,5%, isso se deve ao bom desempenho das atividades industriais extrativistas (mineração), petrolíferas e agroalimentares de transformação da carne ou da cana-de-açúcar, por exemplo. Em suma, setores todos diretamente ligados ao setor primário da economia brasileira.

Portanto, é difícil atribuir tudo à crise sanitária. O movimento de desindustrialização, como em outros países do mundo, é visível desde o final da década de 1980, e se acelerou com a forte crise de 2013-2014 e depois com a crise sanitária de 2020. Em abril passado, apesar de uma retomada recente, a produção industrial no Brasil era 13,4% menor do que em 2012 e 32% se excluirmos as indústrias extrativistas, petrolíferas e agroalimentares. No final, sem seus três setores, a indústria pesaria apenas 8% do PIB do país.

 

Um novo boom de commodities?

Maio de 2021. No campo, no estado de Mato Grosso, há outra paisagem e reina outro ambiente. Nos 583.000 hectares (55 vezes a área de Paris) do único grupo agrícola Bom Futuro, ou nos 285.000 hectares da família Maggi, a fumigação aérea de produtos fitossanitários (1) e as colheitadeiras estão a todo vapor.

Entre maio de 2020 e 2021, a produção da soja no Brasil cresceu 9,4% e ultrapassa, pela primeira vez na sua história, os 133 milhões de toneladas. O país consolida-se assim como o maior produtor mundial desta oleaginosa, utilizado principalmente na alimentação animal na China e na Europa. Como as boas notícias nunca chegam sozinhas, o aumento da oferta não veio acompanhado da queda dos preços – muito pelo contrário. Impulsionado pela demanda global dinâmica e fortes movimentos especulativos nos mercados futuros, o preço da saca de soja subiu 78% nos mercados internacionais em 2020.

Esse “boom” espetacular continua: o preço do produto voltou a subir 9,8% nos primeiros quatro meses de 2021. Essa situação faz o deleite dos grandes produtores e do “Big 4” (2) do comércio: os americanos AstierBunge e Cargill e a francesa Louis Dreyfus Compagnie (LDC) cuja remuneração é em parte indexada aos preços. E como se fosse pouco, a desvalorização da moeda nacional, o real, no mercado de câmbio, enriqueceu ainda mais os vendedores brasileiros de soja, cujos contratos são feitos em dólar.

Mas a situação não é otimista para todos. Ela também tem seus perdedores. O aumento das exportações, ao criar um efeito de perda do mercado interno, provocou um aumento de 300% nas importações – curioso paradoxo para o maior exportador mundial – e um aumento espetacular no preço dos produtos derivados ou ligados à soja: o óleo de cozinha, o mais usado pelas famílias, e a carne bovina tiveram seus preços aumentados em um ano, respectivamente, em 103% e 50%.

Na verdade, o caso emblemático da soja não é isolado. O preço dos produtos das grandes monoculturas brasileiras – o milho e o algodão, mas também os produtos minerais (ferro, cobre, nióbio) – teve um aumento significativo desde 2019. Esse aumento é considerado por alguns observadores como temporário (3) e, por outros, como o início de um novo “boom” generalizado de “commodities” (ou matérias-primas), semelhante àquele que o Brasil conheceu nos anos 2000, sob as presidências de Luiz Inácio Lula da Silva e de Dilma Rousseff.

Esse boom é uma bênção para os produtores e comerciantes, e uma ameaça sinônimo de um aumento duradouro nos preços dos bens alimentícios e dos minerais processados usados na indústria no Brasil, mas especialmente na Europa, e in fine jogado nas costas de todos os consumidores. Mesmo que as autoridades monetárias em todo o mundo temam, embora minimizem, um retorno duradouro da inflação.

 

Um gotejamento limitado

No Brasil, a imprensa nacional, a influente comunidade “ruralista”, que representa o agronegócio, e o presidente Jair Bolsonaro regozijam-se com esta lisonjeira situação das “commodities” para o país. Não é preciso dizer que a população, 70% da qual ganha um salário mínimo (190 euros por mês) ou menos e empobreceu durante a crise sanitária, ainda não viu a cor do “boom” das commodities.

Em termos de emprego, em primeiro lugar, o mercado de trabalho segue profundamente deprimido com uma taxa oficial de desemprego de 14,8%, a que se soma o imenso halo do desemprego formado pela massa de trabalhadores desempregados do setor informal. Nessa área, pouco se pode esperar do dinamismo dos setores agrícola e mineiro devido ao baixo índice de empregos – um efeito lógico dos investimentos feitos por grandes produtores para atender aos padrões de produção da agricultura intensiva (o Brasil é o líder mundial em consumo de produtos fitossanitários) incorporando as tecnologias mais modernas. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) observa que, desde 2012, o setor agrícola perdeu 17% dos empregos.

Em termos de renda, em segundo lugar, o setor agrícola é conhecido por distribuir rendas modestas, pelo menos sem correlação com seus deslumbrantes resultados financeiros. Um trabalhador agrícola recebe, em média, 1,2 salário mínimo por mês. Além disso, este setor, tratado na imprensa como o pilar da economia brasileira e apoiado por um poderoso lobby, beneficia-se de amplas isenções e reduções fiscais sobre as principais arrecadações obrigatórias: imposto de exportação, imposto sobre a circulação de mercadorias (incluindo os insumos), contribuição para o financiamento dos organismos de seguridade social, imposto sobre os lucros... o que reduz a sua participação no financiamento das políticas públicas, especialmente de investimento e de redistribuição.

Concentrada nas mãos de um pequeno número de proprietários, a receita agrícola das exportações, portanto, goteja modestamente para a sociedade brasileira. Este país, conhecido por seus contrastes sociais (eufemismo), não vai falhar, mais uma vez, em sua reputação: enquanto, segundo o IBGE, 50% da população está em situação de insegurança alimentar (quando uma família não sabe se terá comida suficiente na semana seguinte), o que não acontecia há 16 anos, o 1% mais rico, incluindo os grandes proprietários das terras cultiváveis e das minas, agora monopoliza 49% da riqueza nacional, contra 46,9% em 2019 e 40,5 % em 2010, segundo o Crédit Suisse. O suficiente para confirmar as previsões dos economistas de uma recuperação econômica em 2021 e 2022 em K: um aumento da renda dos mais ricos e um empobrecimento dos mais pobres.

Com a crise sanitária, o Brasil está se distanciando mais do que nunca do sonho de uma economia mais diversificada em uma sociedade mais igualitária e fortalecendo seu papel como fornecedor global de matérias-primas. Postura a que o país está acostumado desde o início da colonização e sua inserção, à força, no sistema mundial de comércio no século XVII.

O atual subinvestimento público (em infraestrutura ou educação, para a qual os recursos federais caíram 38% em relação a 2016) e privado na indústria, dificilmente é um bom sinal para uma reversão da tendência no médio prazo. Nesse contexto, o governo estabeleceu como prioridade econômica a privatização da gigante estatal Eletrobras, dona das hidrelétricas que fornecem 90% da energia do país, e a conclusão do acordo comercial União Europeia-Mercosul, que prevê a redução dos impostos alfandegários sobre produtos manufaturados europeus. É uma incógnita se isso ajudará realmente a salvar a indústria brasileira.

 

Notas

1. Uma prática proibida na Europa

2. Esses quatro grupos controlam 70% do comércio agrícola mundial.

3. Ver o 35º relatório CyclOpe, que analisa a evolução dos mercados de commodities.

fonte: http://www.ihu.unisinos.br/610781-a-economia-brasileira-em-declinio