Notas Públicas

    Pierre Monteiro, Portal Geledés

     

    As 28 execuções no Jacarezinho não são uma exceção. É o acinte de uma conduta normativa do cotidiano da favela, do preto e do pobre. Dentro de nossa democracia liberal, pulsam tendências totalitárias e escravistas que de tempos em tempos se tornam hegemônicas. 

    O nosso fascismo/racismo não é apenas um modo de organização do governo;ele é também um modo de vida. Ele se constitui como um modelo de ordenamento do desejo, controle dos corpos e da linguagem, que se estrutura pela construção de uma psicologia/ personalidade/identidade, totalitária, fascista e racista.

    Aqui no Rio de Janeiro o fascismo/racismo/evangélico/neopentecostal é um dispositivo institucional usado pelo 1% da elite, os ricos, e pelos 15% da classe média, para manter os 84% da população pobre e negra das favelas no regime de total exclusão e miséria sem a possibilidade de rebelar-se¹

    Aqui, o nosso racismo/fascismo impõe um apartheid que não precisa de muros, não necessita de câmaras de gás. O controle social submete os pobres e pretos pela inoculação no inconsciente da ideologia evangélica e pela violência policial cotidiana. 

    Desde os primeiros anos de vida, antes mesmo da alfabetização, as crianças evangélicas são ensinadas, estruturadas no seu pensamento, a odiar tudo que não é branco, cristão e evangélico.  Aprendem que preto é a cor do do pecado e da maldade e que o branco é a pureza, a luz a santidade.

    Aprendem a odiar tudo que é da ordem do desejo e da diferença, no outro e no próprio corpo, como na canção que se ensina nas escolinhas infantis dos cultos Brasil afora: “cuidado olho, boca, mão e pé. Cuidado com o que vê, com o que fala, com o que toca e aonde pisa”. Isso que aprendem a odiar em sí, localizam no outro, que se constitui em inimigo a ser eliminado. E quem é esse outro? 

    O outro é o que tem a religião “equivocada”, que tem a sexualidade “equivocada”, que tem a cor “equivocada”,  ou a posição política “equivocada”, e precisa ser corrigido, convertido, reprogramado a partir da ideologia evangélica que nega o corpo, o desejo, a diferença e a igualdade. O outro, no limite, é aquele que assume a diferença de sua cor, de seu corpo, de sua fé e de sua sexualidade. Neste caso, o mal é concretamente localizado no gay, no praticante da religião africana, no preto, no pobre e no favelado, no ativista ou militante de esquerda, que precisam ser eliminados.

    Se para Le Bon e outros as massas e a barbárie são consequências episódicas de regressão social ao que é infantil e selvagem, exteriores à racionalidade branca/hetero/europeia/iluminada, para Freud não se trata de regressão, mas de estrutura constituinte do individuo na civilização ocidental. Freud demonstra sua tese pela forma da organização permanente da sociedade, como se vê na formação de grupos como a igreja e as forças armadas².

    Se restam dúvida quanto a influência das forças armadas e da igreja na normatização da violência, vejamos a autodeclaração de um inspetor da policia civil do RJ, sobre as incursões nas favelas:

    Eu sou o inspetor Torres Galvão, o filho da tempestade, oriundo do mau tempo. Nasci para o combate nas horas ruins. Eu quero que o mau se foda e eu vou sempre fuder o mau e quem tiver do lado deles por mim ta fudido. Porque eu vou atacar ele, esteja onde estiverem.

    A gente não quer confronto, a gente vai preparado para o confronto. Mas quando estala o primeiro tiro a gente quer que aquilo nunca acabe, aí tá a vocação do guerreiro, ai você esquece que é policial, você está numa guerra, está tomando tiro de fuzil, recebendo granadas, blau, blau, blau. 

    E quando isso acontece, a gente que têm essa coisa no sangue, que não é genético, é espiritual, o espírito passou pra gente isso, a gente adora isso! A gente ama aquela situação! E ao mesmo tempo a gente torce para que ela se encerre o mais rápido possível. 

    Mas depois que ela acaba, depois que se acaba a gente fala caralho, que delicia, a gente torce para ela acabar, mas depois que acaba a gente fala caralho já acabou, que merda³!

    A definição de Silvio Almeida sobre o nosso racismo não poderia ser mais precisa. Nosso racismo é estrutural. Seja no uso sistemático da violência pelas forças policiais para manutenção da ordem econômica, seja na construção subjetiva operada pela ideologia evangélica/neopentecostal.

    Ao final, o que ocorreu no Jacarezinho se explica por muitos fatores – o fascismo, os interesses milicianos e presidenciais, a afronta ao STF – mas todos convergem para o racismo que se dá pelo ódio da classe dominante, dos ricos e de parte majoritária da classe média. Eles odeiam o gozo do outro. 

    Apesar de tudo, a favela existe, sobrevive, goza, resiste, e insiste em lutar por condições de vida melhores.  O que seus algozes não suportam em si, transferem ao outro que então deve ser eliminado.

    O preto, o pobre e o favelado são o fetiche do branco dominador. Numa relação metonímica, a parte insuportável do gozo humano é comprimido na diferença racial e sexual que se busca eliminar. Esses algozes, reprimidos e negacionistas de seu próprio desejo, extravasam de forma violenta, inaceitável, sobre aqueles que lhes negam legitimidade. A favela, desde sempre, e cada vez mais, desafia a supremacia branca, homofóbica e autoritária. E eles odeiam isso. A marca de nosso racismo e a razão da chacina é o ódio a existência do outro. 

    Zilda Maria de Paula, mãe de Fernando, morto em Osasco em 2015 (Foto: DANIEL ARROYO)
    Anielle Franco (Foto: Bléia Campos)

     


    ¹ LUZ.Helio. Um dia após chacina, bolsonaristas apostam em discurso extremista.Disponivel em https://www.youtube.com/watch?v=G_B2BnmBWM8, acessado em 09/05/2021.

    ² SAFATLE.Vladimir. (2019). Economia Libidinal do Fascismo. Disponivel em https://www.youtube.com/watch?v=vR2ubjIjwPg. Acessado em 09/05/2021.

    ³ DOCUMENTÁRIO. Dançando com o diabo. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=cG0J7KaAwaE&t=20s, acessado em 09/05/2021.

    fonte: https://www.geledes.org.br/uma-chacina-permanente/