Notas Públicas

    Biógrafo revela facetas quase ignoradas. Ela empenhou-se na democratização do livro, criticou as “igrejinhas literárias” e antenou-se na política brasileira e internacional. Mundo acadêmico, que a desprezava, começa a resgatar sua obra

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    Publicado 19/11/2020 às 18:48 - Atualizado 19/11/2020 às 18:51

    No sábado, dia 21 de novembro, às 16h, o escritor, jornalista e especialista em literatura afro-brasileira Tom Farias apresenta a conferência Carolina Maria de Jesus, uma escritora negra, ao vivo no canal do Youtube do Sesc Paraty. A conferência faz parte da programação do ÀWA, o Festival Sesc da Cultura Negra, do Polo Sociocultural Sesc Paraty. Confira a programação completa.

    Tom Farias em entrevista para a Comunicação do Sesc Paraty

    Carolina escreveu diários, contos, poemas e romances. Apesar do destaque nos ambientes literários, é uma autora ainda mal vista pelo universo acadêmico. É essa a percepção de Tom Farias. Biógrafo de Carolina, o jornalista passou os anos de 2013 a 2016 debruçado sobre o trabalho da escritora. Leu mais de duas mil páginas entre textos publicados e inéditos, além de cerca de 1,2 mil recortes de jornais, visitou a cidade de Sacramento-MG, onde Carolina nasceu e entrevistou familiares.

    “Quem não a conhece não tem dimensão da grandeza do pensamento filosófico, antropológico, da Carolina. (…) Em Quarto de Despejo ela se aproxima de uma interpretação do Brasil que não é um Brasil que a gente conhece hoje, porque ele continua subterrâneo”, avalia Farias.

    No dia 9 de novembro, o Conselho de Coordenação do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Rio de Janeiro aprovou a concessão do título de Doutora Honoris Causa à Carolina. Para Farias, esse é o início de um reparo. “Carolina ainda é um grande mistério intelectual, ela ainda precisa ser estudada, investigada, é um resgate necessário”, pontua o autor.

    O escritor Tom Farias. Imagem: Marta Azevedo

    Como você se aproximou da obra da Carolina Maria de Jesus? O que te levou a essa pesquisa?

    Quem não a conhece não tem dimensão da grandeza do pensamento filosófico, antropológico, da Carolina. Ela reúne, só em Quarto de Despejo, quer dizer, não estou falando aqui dos outros livros, até mesmo os livros inéditos, mas em Quarto de Despejo ela se aproxima de uma interpretação do Brasil que não é um Brasil que a gente conhece hoje, porque ele continua subterrâneo, esse Brasil. Ela se alia ali aos interpretes do Brasil, como Gilberto Freire, Sérgio Buarque de Holanda, Florestan Fernandes. Ela tem um diálogo sobre uma outra perspectiva, uma outra lógica, um outro olhar do Brasil que corre paralelo a esses pensadores e especialistas. Daí a sua atualidade, daí a força da sua narrativa, daí a força da escrita interpretativa de um Brasil que estava submergido. Ela escava esse Brasil, ela traz esse Brasil pra margem e esse Brasil é o que tá ai hoje. Não dos partidos políticos em si, mas dos movimentos sociais. A Carolina fez uma espécie de ensaio sobre essa questão do movimento social. E ela só, nos anos 60, negra, empobrecida, mãe de três filhos. Então ela fez um movimento basicamente isolado. Mas foi um movimento vitorioso.

    Houve alguma grande surpresa encontrada durante a pesquisa?

    Uma grande surpresa encontrada na pesquisa é de uma autora muita empenhada com a arte de escrever, completamente convicta da força da escrita, não só pra o processo de educação, mas no processo de promoção da leitura, da democratização do livro. Esse foi um dos aspectos. O outro, é a Carolina política. Extremamente política, extremamente antenada, com tudo que acontecia no Brasil e no mundo. Ela fava tanto de lugares como Cuba, quanto Estados Unidos, como União Soviética, ela tinha muitas opiniões que traziam reflexões importantes, chocavam, inclusive. Depois, os seus embates literários denunciando as igrejinhas literárias no Brasil, falando de personalidades que eram intocáveis, como Jorge Amado. Então, Carolina mexeu em muitas feridas, o que é algo importante. A imagem que se tem de Carolina é de uma coitada, favelada, pobre, mãe de três filhos, aquelas fotos iniciais da favela do Canindé sobretudo, como catadora de papel e outros materiais recicláveis. Carolina ia além daquilo ali, aquilo ali é uma capa que a vestiu e ela sabia que a capa daquela personagem ia projetar uma outra mulher assim que ela tivesse a menor das oportunidades e ela conseguiu a menor dessas oportunidades trabalhando pra isso, lutando por isso. Com a chegada do Audálio Dantas (jornalista que revelou Carolina), o Audálio Dantas foi essa escada, essa ponte, pra Carolina.

    Quanto tempo levou, do início da pesquisa à conclusão do trabalho?

    O trabalho teve várias etapas. Eu não comecei a escrevê-lo em 2014. Comecei a escrevê-lo em 2016, fiz três viagens importantes a Sacramento para conhecer a cidade, a região que ela viveu, o local, a cultura, o perímetro urbano, a geografia, as pessoas, o dia a dia de Sacramento. Conheci os arquivos, os livros cartoriais, de registro de óbito e cemitério, e a escola que ela estudou. Enfim, essa foi uma das etapas, depois ouvi muita gente, as pessoas, a família, amigos, as últimas entrevistas com Audálio Dantas. A última entrevista feita com José Carlos de Jesus, o filho da Carolina, que morreu no ano de 2016. Enfim, basicamente um mês antes de dar uma entrevista pra mim falando dos casos, do amor que ele tinha pela mãe, da força dela, de convicção, de luta. Carolina era uma sonhadora, queria mudar o Brasil, queria dar oportunidade pra pobres, pretos, queria acabar com a favela e ela achava que a literatura podia fazer isso. Ai as etapas de incursões nos veículos de comunicação tanto do Brasil como do exterior. A vida da Carolina está muito presa aos jornais. A narrativa da vida, da evolução da vida da Carolina desde 1940, quando achei o primeiro registro de uma entrevista que ela deu ao jornal Folha da Manhã, de São Paulo, até o dia 13, 14 de fevereiro de 1977, data da morte e do enterro da Carolina. Foi um mergulho intenso na vida dessa grande mulher. Isso perfaz mais ou menos 2 mil páginas só do que ela deixou de manuscritos, mais ou menos 1200 recortes e noticia de jornais lidos, e os livros. Li seis romances, li as poesias, contos, enfim, fiz uma viagem por esse universo da Carolina e digo que me humanizei muito quando terminei, foi um grande choque de realidade diante de um Brasil que pouco mudou da década de 60 para o ano de 2020, a pobreza, a desigualdade, a violência contra a mulher e as crianças, o feminicídio em alta em plena pandemia, tudo isso choca quando a gente vê que a literatura da Carolina, sobretudo nos diários, tanto Quarto de Despejo como Casa de Alvenaria e nos outros que ela deixou, publicados e outros que estão inéditos ainda, essa noção perpassa ao registro dessa desigualdade naquele período e a Carolina com a esperança de que isso pudesse mudar, mas infelizmente isso não mudou.

    Em vida, Carolina foi rejeitada por grande parte da elite intelectualizada. Hoje, ainda existem resquícios desse olhar sobre a obra da autora?

    Sim, Carolina continua ainda sendo mal vista pelo mundo acadêmico, pela chamada alta produção intelectual brasileira, se podemos dizer assim. Recentemente, ela recebeu o título de doutora Honoris Causa da Universidade Federal do Rio de Janeiro, eu acho que é o início de um reparo que se vem fazendo em torno da Carolina. A obra dela está ai por se interpretar, por ser lida, por ser interpretada, Quarto de Despejo é apenas uma obra da Carolina, como Casa de Alvenaria, como o Diário de Bitita, o Pedaço da Fome, são as obras mais conhecidas da Carolina, sendo que Diário de Bitita e Quarto de Despejo são as que estão no mercado, os outros não foram mais publicados, além desses romances que falei (Tom faz referência às ficções). Carolina ainda é um grande mistério intelectual, ela ainda precisa ser estudada, investigada, é um resgate necessário, acho que estamos atravessando esse olhar com Maria Firmina dos Reis, lá no século XIX, autora de Úrsula, agora com a Ruth Guimarães, que está fazendo centenário neste ano, uma romancista que publicou em 1946 um romance chamado Água Funda, enfim, acho que esse olhar está acontecendo, está havendo uma projeção e sobretudo de autoras negras e isso demarca esse espaço, esse protagonismo deixado pela Carolina a partir dos anos 60 com a publicação das suas obras.


    Sobre o ÀWA

    ÀWA, o Festival Sesc da Cultura Negra, reúne as diversas linguagens artísticas numa programação centrada na temática étnico-racial. A culminância das ações se dá em torno do dia 20 de novembro, dia da Consciência Negra, mas há atividades durante todo o mês.

    Em 2020, devido à pandemia do novo coronavírus, todas as ações do ÀWA serão online. A programação ao vivo vai ao ar nos dias 19, 20 e 21 de novembro e está disponível no site www.sescparaty.com.br. Toda a programação do Sesc Paraty é gratuita.

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