Notas Públicas

    O domínio econômico impõe um controle quase total sobre as informações que a sociedade recebe

    No plano político, nas décadas recentes, os meios de comunicação têm se tornado armas mortíferas e certeiras usadas pelos impérios para destruir governos progressistas e projetos de emancipação política de países que não lhes agradam
    No plano político, nas décadas recentes, os meios de comunicação têm se tornado armas mortíferas e certeiras usadas pelos impérios para destruir governos progressistas e projetos de emancipação política de países que não lhes agradam (Unsplash/Juliana Malta)
     

    Marcelo Barros

     

    Em meio a tantas datas comemorativas destes dias (dia da mãe Terra e dia da classe trabalhadora), poderia parecer pouco relevante que a ONU tenha consagrado o 03 de maio como "dia internacional da liberdade de imprensa". Quantas questões envolvidas nesta proposta!

    Em nossos dias, apesar não estarmos mais submetidos a ditaduras militares, há pessoas processadas e ameaçadas de punição com a lei de segurança nacional, por ter se expressado contra o presidente da República. No Brasil e em outros países, a liberdade de imprensa continua cerceada, seja pelo poder político de índole totalitária, seja principalmente pelo poder econômico dos grandes conglomerados que fazem da comunicação a arma para concentrar mais poder e obter mais lucros.

    O domínio econômico impõe um controle quase total sobre as informações que a sociedade recebe. Atualmente, assiste-se a uma concentração sempre maior de órgãos da imprensa nas mãos de poucos proprietários. No Brasil, a grande imprensa sempre foi propriedade de poucas famílias que, em cada região, controlam jornais, rádios e televisões. Em todo o mundo, mais de 80% das agências de notícia e dos organismos de comunicação pertencem a grandes empresas que controlam, ao mesmo tempo, as redes de informação, as grandes companhias petrolíferas e também indústrias de armamentos. 

    No plano político, nas décadas recentes, os meios de comunicação têm se tornado armas mortíferas e certeiras usadas pelos impérios para destruir governos progressistas e projetos de emancipação política de países que não lhes agradam. O governo norte-americano gasta milhões de dólares para que, diariamente, em todos os países da América, se publiquem notícias negativas em relação aos governos ou aos políticos que devem ser destruídos. A guerra de quarta geração foi usada contra a Líbia, contra a Síria. Hoje, o império norte-americano a usa contra o governo e o povo da Venezuela.

    Este tipo de guerra se tornou muito mais barata do que a convencional e mais eficiente. No Brasil, a produção de notícias falsas já elegeu até presidente da República. Todo mundo sabe que a rede da família Marinho promoveu um juizinho do interior a falso herói nacional. Serviu-se amplamente dele para destruir a democracia e possibilitar a entrega sistemática de todas as riquezas nacionais a empresas estrangeiras. Garantiu a vitória do inominável para o governo do país. Depois que as coisas não saíram de acordo com o esperado e, por várias razões, a farsa está sendo descoberta, a Rede Esgoto descarta o juiz e quer dar ao país a impressão de que tomou a defesa do povo.

    É verdade que todo ponto de vista é sempre vista de um ponto. Também se sabe que é mais barato opinar do que informar objetivamente. Mas, os cidadãos têm direito a uma informação honesta. É direito de quem informa tomar partido e declarar suas preferências ideológicas e sociais. Basta que isso seja claro, até para favorecer o debate e a pluralidade de opções. Embora pertença a uma empresa particular, um meio de comunicação social é sempre serviço público. Deve cumprir sua tarefa sem ser subjugado a interesses privados.

    Em sua mensagem para o 55º Dia Mundial das Comunicações Sociais que ocorrerá no domingo 16 de maio, o papa Francisco apontou para os riscos de uma comunicação social que não tenha controles, diante da expansão das chamadas 'fake news'. O papa afirmou: "Há algum tempo, descobrimos como as notícias e imagens são fáceis de serem manipuladas. Isso ocorre por diversos motivos, às vezes até apenas por um narcisismo banal. É preciso perceber os riscos provocados pelas notícias falsas na internet, especialmente, com a pandemia da Covid-19. Atualmente, os meios de comunicação oferecem mais espaço para uma "informação reconfeccionada", e são menos capazes de interceptar a verdade das coisas ou a vida concreta das pessoas. Também não conseguem informar sobre os fenômenos sociais mais graves. A consciência crítica nos empurra não a demonizar os instrumentos de comunicação e sim a cuidar de termos sempre maior capacidade de discernimento". (...) "Todos somos responsáveis pela comunicação que fazemos, das informações que damos, do controle que, juntos, podemos exercer sobre as notícias falsas, desmascarando-as. Todos estamos convocados a ser testemunhas da verdade", completou. "É necessário um jornalismo "valente" e com coragem para ir de encontro às pessoas e às histórias de vida".

    Quem é cristão se lembra: a palavra de Deus nos vem através do "evangelho", termo grego que significa boa notícia, informação verdadeira e libertadora, a respeito do projeto divino no mundo. O compromisso dos meios de comunicação com a humanidade é fazer com que as notícias publicadas e seus comentários possam ser realmente como "evangelhos", isso é notícias que levem à vida e à liberdade humana. Independentemente de serem ligados ou não a uma religião, serão notícias evangélicas se servirem a um projeto de mundo mais justo e fraterno. Para isso, é indispensável e urgente que os meios de comunicação sejam livres e democráticos.

     

    Marcelo Barros
    Marcelo Barros é monge beneditino e teólogo especializado em Bíblia. Atualmente, é coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). Assessora as comunidades eclesiais de base e movimentos sociais como o Movimento de Trabalhadores sem Terra (MST). Tem 45 livros publicados dos quais está no prelo: "O Evangelho e a Instituição", Ed. Paulus, 2014. Colabora com várias revistas teológicas do Brasil, como REB, Diálogo, Convergência e outras. Colabora com revistas internacionais de teologia, como Concilium e Voices e com revistas italianas como En diálogo e Missione Oggi. Escreve mensalmente para um jornal de Madrid (Alandar) e semanalmente para jornais brasileiros (O Popular de Goiânia e Jornal do Commercio de Recife, além de um jornal de Caracas (Correo del Orinoco) e de San Juan de Puerto Rico (Claridad).