Com dados represados por conta do fim de semana e da Semana Santa, país contabilizou 86.979 novos casos. De acordo com Margareth Dalcolmo, pneumologista da Fiocruz, “a taxa de transmissão segue extremamente alta e o ritmo de vacinação ainda está aquém do que seria desejável”

Trabalhadores do SAMU socorrem pessoas com covid-19 na madrugada de 4 de abril, em Salvador.
Trabalhadores do SAMU socorrem pessoas com covid-19 na madrugada de 4 de abril, em Salvador.FELIPE IRUATA / EFE
 
 
São Paulo - 06 ABR 2021 - 18:44 BRT - EL PAÍS

 

Mais um recorde. O Brasil registrou nesta terça-feira, 6 de abril, 4.195 novas mortes por covid-19 nas últimas 24 horas, totalizando 336.947 óbitos pela doença desde o início da pandemia de coronavírus, segundo o boletim divulgado pelo Ministério da Saúde. É também a primeira vez que o país supera a marca de 4.000 óbitos contabilizados em um só dia. Por um lado, é resultado do represamento de dados do fim de semana e do feriado de Semana Santa, dias em que os laboratórios de diagnóstico fizeram menos análises. Por outro, prenuncia um mês abril com taxas ainda muito elevadas de óbitos. 

“Podemos esperar um mês muito triste, muito grave, muito trágico para o Brasil. A taxa de transmissão segue extremamente alta e o ritmo de vacinação ainda está aquém do que seria desejável”, explicou por telefone a médica Margareth Dalcolmo, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e uma das pneumologistas mais experientes do país. O Ministério da Saúde também contabilizou 86.979 novos casos de covid-19 e mais de 13 milhões de infecções desde o início da crise sanitária. “As novas variantes estão causando hoje a doença, o que significa que muita gente jovem, e não necessariamente com comorbidades, está adoecendo. Mudou o perfil de pessoas que demandam assistência e a pressão no sistema hospitalar segue muito alta”, acrescenta. Ela acredita ser possível que o país alcance a marca de 5.000 óbitos diários, caso a taxa de transmissão e a pressão no sistema de saúde não diminuam.

Em boletim divulgado nesta terça-feira pelo Observatório Covid-19 da Fiocruz, a instituição também “alerta que a pandemia pode permanecer em níveis críticos ao longo do mês de abril, prolongando a crise sanitária e colapso nos serviços e sistemas de saúde nos estados e capitais brasileiras”. Ainda de acordo com o documento, foi observado um novo aumento da taxa de letalidade, de 3,3 para 4,2%. Este indicador se encontrava em torno de 2,0% no final de 2020. Os pesquisadores acreditam esse crescimento pode ser consequência da “falta de capacidade de se diagnosticar, correta e oportunamente, os casos graves, somado à sobrecarga dos hospitais.”

Um novo recorde já era esperado desde o início do dia, uma vez que São Paulo, o Estado mais populoso e mais rico do Brasil, também registrou sua maior cifra de mortes desde o início da pandemia: 1.389 óbitos nas últimas 24 horas. Porém, o médico João Gabbardo, coordenador do Centro de Contingência da Covid-19, afirmou que a “aceleração de internações em UTI passou a ser negativa”, o que “significa que o número de novas internações é menor que o de altas” e a pressão no sistema de saúde começa a diminuir. Ainda assim, o especialista alertou que todo o cuidado é extremamente importante nos próximos dias. As taxas de ocupação de leitos de UTI seguem muito altas e superam os 89% tanto na capital paulista como em todo o Estado.

Para o neurocientista Miguel Nicolelis, os números desta terça-feira vão ao encontro a um alerta lançado na última sexta-feira por pesquisadores brasileiros da Universidade de Washington, em Seattle, nos Estados Unidos. “No melhor dos cenários, até julho o Brasil pode atingir meio milhão de óbitos. No pior dos cenários, 600.000 óbitos”, explica o especialista em seu podcast Diário do front, sua coluna em áudio que será publicada nesta quarta pelo EL PAÍS.

Para Dalcolmo, o trágico cenário no qual o Brasil se encontra só poderá ser superado se o país promover um lockdown de no mínimo duas semanas ao mesmo tempo que a campanha de vacinação ganhe um novo ritmo e se acelere. “Precisamos vacinar muita gente e muito rápido, para que consigamos realmente interferir nessa transmissão. Não adianta levar até o fim do ano para chegar a 70% da população brasileira vacinada. E não adianta dizer que basta vacinar 70 milhões de pessoas. Isso está errado”, afirma. “Temos que vacinar 150 milhões de pessoas no Brasil para que consigamos ter uma imunidade comunitária adequada. E nós precisamos fazer isso até a virada do semestre”, argumenta.

A pneumologista lembra que o Sistema Único de Saúde (SUS) tem capacidade para vacinar mais duas milhões de pessoas por dia. Até o momento, não chegamos ao primeiro milhão. Está previsto que em abril os Estados comecem a vacinar a população na faixa dos 60 anos. Até o momento, pouco mais de 20 milhões de brasileiros receberam a primeira dose da vacina. Ou seja, cerca de 10% da população —muito atrás de países como Estados Unidos, Chile, Reino Unido ou Israel. “O ritmo está muito lento. É inadmissível que postos de saúde tenham fechado no feriado e que haja tanta restrição. Deveriam estar funcionando sábados, domingos, e vacinando sem parar”, argumenta a médica.

Chile, aliás, foi de exemplo a caso de alerta. O país vive o pior momento da pandemia, com mais de 8.000 contágios diários nos últimos dias e um recorde de ocupação de leitos de UTI, apesar de 45% da população, 7 dos 19 milhões de habitantes, ter recebido pelo menos uma dose da vacina, segundo as autoridades sanitárias. Segundo especialistas, o Governo Sebastián Piñera não fez uma comunicação adequada sobre os efeitos da vacinação e quando a imunidade começa, de fato, a existir nos imunizados com duas doses. Além disso, houve uma reabertura precoce do país. A principal vacina usada no Chile é a Coronavac, também a coluna vertebral do programa de imunização brasileiro.

 
PANDEMIA DO CORONAVÍRUS

Miguel Nicolelis: “Óbitos podem superar nascimentos no país em abril por causa da covid-19”

No segundo episódio do podcast ‘Diário do Front’, neurocientista fala dos impactos demográficos da pandemia no Brasil e manda um recado para o novo comandante do Exército. Ouça a coluna

 
 

O neurocientista Miguel Nicolelis não está nem um pouco surpreso com o novo recorde de óbitos pela covid-19 nesta terça-feira. As 4.195 mortes registradas nas últimas 24 horas, ele diz, vão ao encontro de um alerta lançado na semana passada por ele mesmo, por outros pesquisadores brasileiros e por um estudo da Universidade de Washington, em Seattle, nos Estados Unidos. “No melhor dos cenários, até julho o Brasil pode atingir meio milhão de óbitos. No pior dos cenários, 600.000 óbitos”, explica o especialista no novo episódio do podcast Diário do front, a análise semanal do colunista do EL PAÍS sobre os rumos da crise sanitária no país. 

No episódio, Nicolelis fala dos impactos demográficos da pandemia no Brasil, não apenas agora, como para a população economicamente ativa do país no futuro. O cientista revela que já há redução significativa no saldo de nascimentos em relação a 2019 e que em alguns Estados e cidades já há mais mortes do que nascimentos por cauda da escalada da pandemia. No caso do Rio Grande Sul, ele afirma que dados preliminares de março indicam que foram 4.000 óbitos a mais. “É possível que em abril os óbitos superem os nascimentos em todo o país. Toda a região sul brasileira já está empatada.”

MAIS INFORMAÇÕES

O colunista do EL PAÍS fecha o Diario do front desta semana enviando um recado ao novo comandante do Exército, general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira. Ouça: o acesso à coluna em áudio de Nicolelis é grátis, assim como as demais informações sobre o novo coronavírus no EL PAÍS. Compartilhe com seus amigos e familiares. Disponível no Spotify (clique aqui) e, em breve, no YouTube e no Instagram. O podcast Diario do front tem a produção-executiva de Marina Miranda e a produção e trilha sonora de Cacau Guarnieri.

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Covid-19 eleva risco de doenças mentais e neurológicas

Análise de dados de 230 mil pacientes nos EUA mostra que um terço deles desenvolveu doenças mentais ou neurológicas seis meses depois de curados. Entre elas estão ansiedade, depressão e também demência.

DW
 
Enfermeiras cuidam de paciente com covid-19 em hospital

Entre aqueles que estiveram internados em estado grave, há uma prevalência de acidente vascular cerebral e de casos de demência

Uma em cada três pessoas que foram infectadas com o novo coronavírus desenvolveu problemas neurológicos ou mentais, como ansiedade e depressão, em até seis meses após a cura, revelou nesta terça-feira (07/04) o maior estudo já realizado sobre sequelas mentais causadas pela covid-19.

Os pesquisadores afirmaram que ainda não está claro como o vírus estaria relacionado a doenças psicológicas, sendo ansiedade e depressão as mais comuns entre as 14 enfermidades analisadas. Já casos de demência e outros distúrbios neurológicos são mais raros, mas mesmo assim significativos entre pacientes que tiveram um quadro grave de covid-19.

Publicado na revista especializada Lancet Psychyatry e realizado por pesquisadores da Universidade de Oxford, o estudo analisou dados de 236.379 pacientes americanos que tiveram covid-19 e revelou que 34% deles desenvolveram algum distúrbio neurológico até seis meses depois de terem se recuperado da doença.

Entre os distúrbios mais comuns estão ansiedade (17%) e transtornos de humor (14%). Segundo o estudo, esses tipos de sequela não aparentam ter relação com o quão leve ou grave foi a infecção. Já entre aqueles que estiveram internados em estado grave, há uma prevalência de acidente vascular cerebral (7%) e de casos de demência (2%).

"Estes são dados reais de um grande número de pacientes. Confirmam a alta taxa de diagnósticos psiquiátricos após a covid-19 e mostram que também ocorrem problemas sérios no sistema nervoso", afirmou o principal autor do estudo, Paul Harrison, professor de psiquiatria na Universidade de Oxford.

Mais estudos são necessários

Os pesquisadores afirmam que os resultados são preocupantes. "Embora os riscos individuais para a maioria desses distúrbios sejam baixos, o efeito na população pode ser substancial e sentido nos sistemas de saúde e social", acrescentou Harrison.

Outros diagnósticos entre os que tiveram covid-19 foram o abuso de álcool ou outras substâncias (7%) e insônia (5%). Os riscos de problemas neurológicos são maiores em pacientes que tiveram formas graves de covid-19, por exemplo, em 62% do que sofreram de encefalopatia durante a infecção.

O estudo mostrou ainda que estes diagnósticos são mais comuns em pacientes com covid-19 do que em outros que tiveram gripe ou outras infecções respiratórias durante o mesmo período, sugerindo um impacto direto da doença provocada pelo vírus SARS-CoV-2.

"Agora, precisamos ver o que acontece para além dos seis meses. O estudo não consegue revelar os mecanismos envolvidos, mas evidencia a necessidade de investigar urgentemente para identificar, prevenir ou tratar esses casos", acrescentou um dos coautores do estudo, Max Taquet.

Mais estudos sobre esse tipo de sequela da covid-19, no entanto, são necessários, pois muitos dos infectados não desenvolvem sintomas ou não entram em registros de sistema de saúde. Os pesquisadores também destacam que a análise de dados não identificou o grau de gravidade das sequelas registradas.

cn/as (Reuters, Lusa, APF)